Matando Idéias

Betas, descartes e testes.

Archive for the ‘Contos’ Category

Cinema

Posted by manjivitor em maio 2, 2009

O garoto com espinhas apoiava-se no balcão sem entusiasmo. Do outro lado, pessoas andavam em direção a saída. Crianças, velhos e adultos. Mas os que realmente lhe incomodavam eram os adolescentes. Não por serem ingênuos, egoísta e efusivos, mas por estarem acompanhados de suas namoradas. Odiava a todos eles e em sua mente já ouvia novamente a voz de sua mãe: “Porque você não pode ser como os outros garotos? Talvez devesse arrumar uma namorada, bebezão da mamãe!”
– Não sou seu bebezão! – Grita o balconista.
Algumas pessoas que caminhavam lhe olham. Seu rosto fica rubro e algumas adolescentes de allstar que passavam apontam e riem dele. Vira-se para a maquina de pipoca com os punhos cerrados e evitando olhar para elas. Seu ódio fervilha misturado com raiva, e em sua mente palavras de guerra surgem: “Odeio todos vocês! Vocês que riram de mim! Vou matar todos vocês! E os que ficarem vivos se ajoelharam perante a mim! Temam o Senhor do Escuro! Trarei uma era de terror e chamas sobre toda a Terra Média!”
– Duas pipocas médias, por favor – pede um homem.
– É… Só um instante – diz ele murchando por dentro.

A metros dali um casal que caminhava para a saída se assusta com o grito do menino estranho de testa oleosa e camisa do Darth Vader, que vendia pipocas.
– É cada um – Diz o homem gordinho de calça jeans e camisa social azul clara, onde se viam grandes manchas de suor abaixo dos braços. – Só tem maluco nesse shopping, já te disse.
– Ah, você que se irrita com tudo – responde sua mulher de longos cabelos e saia. – Talvez devesse relaxar um pouco.
– Já estou relaxado. Foi um ótimo filme.
– É…
– O que foi? Não gostou dele?
– Você sabe que eu não sou muito fã de musicais, amor.
– Mas não foi um musical!
– Claro que foi. Pessoas cantavam o tempo inteiro e…
– Porque você está querendo brigar comigo?
– O que? – Pergunta ela parando de andar.
– Eu sei que você quer brigar comigo. Quer me irritar. Sei disso. Mas não vai conseguir.
Ela abaixa a cabeça e apóia a mão na testa sem dizer nada.
– Agora vai me ignorar? Tudo bem. Faça como quiser.
– Por que você está gritando? Estamos dentro de um sho…
– Porra, Márcia! Você tá assim comigo desde aquele dia.
– Esse não é o local para…
– Nunca é!
– Calma, amor. Vamos para o carro, vamos.
– Já disse que não quero falar com você!
– Não, você não…
Ele esfrega mão na testa freneticamente.
– disse nada disso – completa ela.
– Tudo bem. Quer brigar? Vamos brigar. Bem aqui no meio do shopping! Para todo mundo ouvir – fala ele alto, quase gritando.
– Amor – chama ela baixinho e disfarçadamente. – Vamos para o carro, por favor.
– Márcia! Márcia! Você me… Márcia! Puta que pariu!
– Calma, vamos para o…
– Márcia! Você me tira do… Márcia!
– Calma, Fábio, por favor. Sua pressão vai…
– Ai! Minha pressão, Márcia!

Um homem desaba no chão. Algumas pessoas param para olhar enquanto outras correm para chamar um segurança e a mulher ao seu lado respira, como que aliviada. Jonas foca melhor a câmera de segurança, do interior de sua salinha, e vê o menino que vende pipocas com as mãos levantadas no ar, como que comemorando algo.
– É cada maluco – Pensa ele e tira o radio de cima da mesa. O liga e faz o chamado: – Sujeito gordo desmaiou na porta do cinema.
Solta o botão e espera a resposta que vem após alguns segundos.
– Ta certo, tem um brigadista indo – respondeu a voz no walkietalkie.
Trabalho feito. Jonas imaginava, enquanto rodava em sua cadeira giratória, que aquele seria o ponto alto de seu dia. Mas como um tiro um pesamento lhe atinge a cabeça. Sua mente considerou inúmeras possibilidades e chegou a conclusão de que provavelmente não haveria problema. “Hehehe”, pensou sua consciência. Correu para a mesa do outro lado da sala, abriu uma gaveta e em seguida sua carteira, que havia estado lá dentro. De lá, tirou um pequeno saquinho recheado do que parecia mato ruminado e um pedacinho de papel.
Dechavou. Enrolou. Lambeu. Pilou. Acendeu e viajou.

Brigadista não era o que ele queria ser. Queria ser bombeiro. Como acabara naquela profissão? Queria salvar pessoas não ajudar gordos desmaiados em shoppings. Queria ser grande, um herói. Seu dia havia sido um lixo. Acordara atrasado, derrubara seu café da manhã e perdera o ônibus duas vezes. Agora era noite, mas passara quase que todo seu dia sentado em uma sala quase vazia, contando com apenas uma TV, rodeado do que ele chamaria de “Muitos Machos” e quase no final de seu turno, um infeliz jogo do palitinho o levara a ter que socorrer o maldito gordo. Nem o conhecia, mas sabia que o odiava. Deve ter passado mal de tanto comer doces. Encheu o cu de jujuba e agora ta peidando açúcar.
Virou a esquina do corredor e viu uma roda de pessoas. Imaginou que no centro estaria a proeminente baleia. Muita conversa. Pessoas discutiam métodos de tratamento para a já diagnosticado, pelo consenso geral dos ali presente, doença cardiovascular. Algumas crianças rodavam em volta da grande roda, como brincando de ciranda, enquanto um garoto estranho de testa sebosa agitava as mãos no ar e gritava: “Fogo, Horror e perdição! Hahaha!”
Adentrou o circulo e viu o gordo no chão. Sua mulher ao lado tinha cara de quem passou o dia revezando entre massagens e banhos de banheira com rosas.
– Espaço, por favor – pediu ele da maneira menos enfática possível esperando que as pessoas decidissem desobedece-lo e resolvessem pular todos juntos sobre o gordo.
– O que ele tem, doutor? – Perguntou uma velha que viera do outro lado do shopping atraída pelo cheiro de desgraça alheia.
– Não sou médico – respondeu.
– Então o que faz aqui? – Perguntou ela.
“O que faz aqui”. As palavras ressoavam em sua mente. O que eu faço aqui? Repetia para si mesmo. Deixou-se perder em devaneios. Saiu da roda. Caminhou até a parede. Sentou e ascendeu um cigarro. “O que eu faço aqui?”

“Ronaldo”. Pensava Cássio, o segurança enquanto assistia a um jogo de futebol na telona de LCD, que jamais teria, através da vitrine das Casas Bahia. Ao longe ouvia pessoas correndo. Sua mente se alertou como um suricate na savana. As palavras já vinham em sua mente: “Não pode correr por aqui”. Poderia dar uma bronca em mais adolescentes! Uh! Era um pensamento quase orgásmico.
– Moço! Moço! Ajuda!
Droga. Pensou ele virando-se.
– Tem uma moça passando mal na porta do cinema! – Falou umas das mulheres que havia chegado.
– Não foi uma moça! Foi um gordo – dizia outra.
Não sabia em quem confiar. Não sabia mesmo se deveria confiar em alguém. Seu instinto era um predador, e os domínios daquele grande aglomerado de lojas eram a sua selva. Iria atrás do seu moça-gordo.
– Ok, me levem lá – disse ele passivamente.
Correram de volta em um pequeno trote. A cena não era das mais agradáveis. Velhas gritavam por todos os lados. Via uma roda de pessoas ao redor do que parecia ser um sujeito rechonchudo e suado. Ao lado, crianças dançavam seu ballet em torno do circulo enquanto um garoto baixinho e cheio de espinhas agitava os braços e gritava: “Morte! Morte a todos! Sintam a ira de Khan!” e um sujeitos vestido de brigadista apoiava-se na parede e fumava um cigarro. Não daria conta de tudo. Pegou o walkietalkie e apertou seu botão.
– Jonas – chamou ele. – Jonas? Ta aí?
Nenhuma resposta. Repetiu.
– Jonas? Porra, Jonas! Ta aí?
E uma voz soou do walkietalkie cantarolando.
– Don’t worry, about nothing. Cuz every little thing, is gonna be alright! Tchuruchuchu tchururu!
Aquele não era um bom dia. Definitivamente.

Posted in Contos | Leave a Comment »

Danilo

Posted by manjivitor em abril 22, 2009

Danilo era uma pessoa normal. Viveu boa parte da vida em uma cidade de interior onde não tinha amigos. Aos 11, foi morar com os pais em uma cidade média. Teve dificuldades de se adaptar aos novos amigos que não tinha. Seu pai não falava muito, e todas as tentativas de Danilo de conversa acabavam o fazendo levar um cerveja para ele. Sua mãe não falava muito. Muda desde a infância após ter sido estuprada por um carteiro.

Mas o garoto crescera, agora um adolescente. Espinhas, fimose e muitas horas gastas na ducha com revistas que claramente diziam na capa serem “Proibidas para Danilo”. Conquistara um amigo, amizade essa que durou cerca de 4 meses quando o menino com leve paralisia mental, mal hálito, cara de Síndrome de Down e que usava óculos lhe chamou de “Babacão” e foi sentar no outro lado do refeitório. Não conseguia uma namorada. Não conseguia sequer chegar perto de uma menina. E as vezes sentia que fazia algo de errado quando pensava em alguma delas.

Mas o adolescente crescera. Após terminar o ensino-médio, fez 1 ano de cursinho preparatório para o vestibular. Não passou. Arranjou um pequeno emprego e pagou o curso novamente. Uma reprovação não iria abala-lo jamais. Perseverou e passou na segunda tentativa.

Faculdade. Via toda uma gama de experiencias novas pipocar diante de seus olhos. Como muitos de sua época, acreditava que a faculdade seria um antro de conhecimento, recheada das mais belas descobertas e das melhores companhias. Acreditava que viveria pelo conhecimento, e que o conhecimento seria sua arma para enfrentar o mundo. Isso até perceber que metade das provas que fazia eram sobre conteúdos que seus professores não deram aula. Que seus professores eram seres maus, quase demoníacos que exigiam o que nenhum ser humano sem quantidade enormes de cafeína pudesse agüentar. Danilo chegou a exaustão. Mas havia terminado seu curso. Sentia-se dez anos mais velho e não tinha completa certeza se havia se livrado do vício em café. Mas não era hora para pensar aquilo.

O mundo. “Cuidado pois estou indo ai, e você está na minha mão” – pensava. Mas passara quase um ano sem emprego, sofrendo ameaças constantes de seus pais de o expulsar de casa. Decidiu então mudar de cidade. Sabia que lá no fundo, o que lhe fazia mais mal era aquela cidade. Mudou-se.

Cidade nova. Novos ares. Novas pessoas. Nada de parentes. Via no horizonte uma era de iluminação para sua vida. Conseguira um emprego como professor em uma escola mediana no centro da cidade. Daria aula para o ensino-médio, diziam. Mas no fundo ele não se importava para quem daria aula. Só queria da-la. Queria mudar o mundo. Ser o melhor dos professores. Ser o que nenhum professor havia sido para ele. Iria criar pensadores, seres inteligentes, com cabeças próprias prontos para enfrentar o mundo. Faria aulas dinâmicas, concursos, daria seu sangue e tudo que fosse necessário para atrair atenção daquelas sementes de um futuro melhor.

E o tempo passou. Acreditou que muitas vezes havia conseguido. Mas não tinha certeza sobre nenhuma. Os anos iam passando cada vez mais rápido, como um trem que deixava a vida. Sua animação murchara. Seu entusiasmo morrera. Seu sonho esfarelava mais a cada dia. Quantos anos já havia vivido, se perguntava. 40 anos? É tempo de mais para não ter feito nada. Mas já era tarde agora. Suas aulas já não eram as mesmas, apenas enchia o quadro com o que podia e aguardava sem ansiedade o sinal da próxima aula. Só queria ficar ali, sentado. Apático.

– Professor.

Ouvira de longe uma voz feminina lhe chamando dentro da sala de aula e lhe tirando vagamente de seus pensamentos sobre a vida. Uma estudante qualquer, pensava. Sua mente automaticamente a ignorou.

– Professor – repetiu ela. – Como eu calculo a tensão dessa mola da questão 1?

Insistente, pensou ele em seu topor. Ele levanta a cabeça que estava apoiada na mão e a observa. Que calça era aquela que a menina usava? Chegava até o umbigo. Essa moda não acabou a uns 20 anos atrás?

– Professor o senh…

E aquele menino sentado a frente dela. Que cabelo era aquele. Roxo? Ele tem brincos na cara. E sua atenção volta para a menina. Sua boca meche, mas sua cabeça ignora os sons. Essa calça é…

– … a mola da questão 1?

– Tão alta – fala ele sem querer.

– O que? – Pergunta a menina.

– É… Tensão alta.

– Mas qual é a…

O sinal toca. É como um orgasmo. O último sinal. O tão sagrado último sinal.

Ele sai, abre seu armário, pega sua coisas e se arrasta lentamente até o carro ignorando os comprimentos de outros membros docentes.

O que faria agora? Não tinha namorada. Não tinha amigos. Iria para casa.

Dirige calmamente, ignorando os chingamentos. Passa por 30 outdoors diferentes e não sente vontade de comprar nada oferecido, inclusive a incrível sandália da Xuxa ou assinar a Sky Hd. Só queria ir para casa.

E chega. Abre a porta e anda até a cozinha. Fedia mofo. Ele arremessa a chave do carro em cima da mesa. Errou. Abre a geladeira e não vê nada nutritivo. Pega uma cerveja e caminha para o sofá e se senta.

Liga e não há nada de interessante passando. Mas não que ele se importasse. Só queria se sentir acompanhado. Abre a cerveja e a olha. Bolhas. Lembrara-se de um conto de Woody Allen que lera anos antes. Se o universo estava mesmo em expansão, será que um dia ele deixaria de encontrar suas roupas? Afinal… O universo. Que coisa estranha, pensa ele. Tão grande e ainda ficando maior. É como uma distância dentro de outra dentro de mais uma, envolvida por uma outra distância que não parecia existir como comprimento, dentro de outras distância mais estranhas ainda. Ah! O universo. Uma talvez-esfera dentro de um talvez-universo com mais talvez-dimensões talvez dentro de outro talvez-universo. E ele ali. Bebendo uma talvez-cerveja não muito boa. Vendo um talvez-programa bom. Tendo sua talvez-vida. Se sentia doente. Melhor não dar aula amanhã.

Talvez fosse melhor.

Posted in Contos | Leave a Comment »

Os três

Posted by manjivitor em março 8, 2009

Ela olha em volta. Os azulejos brancos do banheiro parecem perder seus contornos, depois voltam ao normal quando ela desvia sua atenção deles. Olha o tapete, antes felpudo, agora recheados de pequenas cobras que oscilam como que mergulhadas em águas com correnteza.

Olha no espelho. Mas não vê a si mesma. Sente-se expandir para fora de si, como se não coubesse dentro de seu próprio corpo.

Um vento percorre o banheiro. Mas a janela está fechada. Resolve sair.

– Boa noite – Diz o sujeito de cartola sentado na cama, apoiando suas mãos sobre uma bengala.

– Boa noite. Quem é você? – Pergunta ela.

– Não fará diferença.

– É, você provavelmente está certo. – Ela caminha pelo quarto, sentindo o carpete acariciar seus pés, enquanto as sombras dançam a sua volta e ela se senta na cama ao lado do sujeito.

O observa por um tempo.

– Eu acho que te amo. – Diz ela.

– Eu sei que me ama. Também amo você.

– Mas eu não te conheço, como posso te amar?

– Você me conhece. Só nunca me viu com um rosto.

– Tenho vontade de beija-lo, tenho vontade de bebe-lo, tenho vontade de transar com você.

– Também tenho. – Diz o homem de cartola que parece se distanciar.

Ela aproxima sua boca da dele e o beija. Como se um tiro atravessasse sua mente, ela tem um orgasmo que parece durar anos.

Quando percebe, ele não está mais lá. Mas ela sente vontade dele. Levanta, sente o mundo levantando também, e espera ele se acalmar. Anda até o banheiro.

Não o vê. Lá, apenas a banheira onde pingüins completamente brancos brincam, os azulejos alterando seus formatos em coro e a seringa no chão, onde ainda resta um liquido marrom com cheiro forte. Ela pode sentir o cheiro a metros de distância. Um cheiro doce e salgado.

Se vira e volta para o quarto. Encostado na parede existe um homem bem vestido. Roupa social.

– Olá? – Pergunta ela.

– Bom dia. – Diz a voz calma do homem. Tão calma que a irrita um pouco.

– Quem é você?

– Posso lhe ajudar a descobrir.

– Não quero que me ajude, quero que me fale.

– Você parece irritada. Isso não faz bem para você. Acalme-se. – Ele anda em sua direção.

– Não quero me acalmar.

Nas paredes do quarto, sombras começam a dançar em roda, como se no centro do quarto houvesse uma fogueira.

– Vá embora. – Diz ela deitando-se na cama e olhando para o teto espelhado. Sem reflexo dela mesma.

– Talvez você devesse procurar ajuda.

– Não preciso de ajuda.

– Acho que precisa. Isso não pode acabar…

– Vá embora! – Ela grita o interrompendo.

Silêncio, mas tudo ainda parece barulhento, como se as cores fossem sons ou como se houvesse uma orquestra de música estranha escondida no fundo da sua mente, esperando para sair sempre que pudesse.

Os pingüins parecem ter saído da banheira, e dançam pelo quarto tentando molhar uns aos outros com os baldes que carregam.

Os lençóis viram água e ela bóia sobre eles enquanto se lembra do cavalheiro de cartola. Uma ponta de tesão lhe desce a espinha. Ela desliza as mãos, desde o pescoço, passando pelos seios até chegar a virilha. Acaricia a si mesma, e fecha os olhos sentindo-se flutuar.

– Olá. – Soa uma voz perto dela.

A garota abre os olhos. Ao seu lado na cama, um homem vestido em trapos a observa.

– Quem diabos é você? – Pergunta ela.

– Talvez você devesse parar de perguntar coisas que não precisa saber, e concentrar-se em fazer algo para ela.

– Ela quem?

– Ela.

– O que?

– Levante-se.

Como que obedecendo ao homem, seu corpo se senta na cama.

– Agora vá.

Ela luta contra o impulso de se levantar. Sacode as mãos na direção do homem querendo lhe arranhar, rasgar, cortar, apertar.

O homem some entre seus dedos. E ela cai da cama.

Olha para a porta do banheiro. Lá está ele. Ela corre na direção oposta, e se vê na sacada do quarto. Lá em baixo, luzes correm por linhas pretas e dragões dançam por trás dos prédios.

Sua camisola está rasgada. É cor de pérola.

– Não deveria fugir. Deveria desejar fazer o que precisa ser feito.

– Vá embora!

Ela rasteja até bater no gradeado de arabescos da sacada.

– Ame.

– Vá embora!

Ela se levanta. Olha lá para baixo. Está tudo tão suave. Talvez devesse pular.

– Não faça isso.

– Vá embora! – Diz ela subindo na grade.

– Não faça isso.

– Vá embora!

Os pingüins passam correndo por debaixo da perna do homem e começam a dançar enlouquecidamente pela sacada, pulando todos, um atrás do outro, após alguns segundos.

Ela os olha cair, e lá embaixo, mergulham naquele mar preto recheado de peixes vermelhos e amarelos.

Deixa seu corpo cair. E após um tempo que parece uma insanidade toca o chão.

Sua cabeça dói. Olha em volta, está em um banheiro, deitada no chão próxima a privada.

Há uma seringa no chão.

– Como sempre. – Diz para si mesmo.

Sua boca está seca. Levanta-se e se olha no espelho apoiando os braços na pia. Sua cara está um desastre. Olheiras profundas.

Abre a torneira, joga água na cara e depois bebe um grande gole.

Ouve passos. Alguém abre a porta do quarto.

Se vira, e vê uma garotinha parada a olhando.

– Mamãe? Você está bem?

– Claro filha. Vá lá brincar no seu quarto, mamãe vai tomar banho.

– Ok. – Diz a menina olhando para a seringa no chão, depois sai do quarto.

Ela espera a filha sair, como que para dizer “não é minha”, e pega a seringa do chão e joga na lixeira.

Anda até o quarto e se deita na cama.

Na criado mudo, um cartão. Ela o pega e o lê. Há apenas um numero de um telefone no verso, enquanto na frente, uma pequena ilustração de uma cartola.

Posted in Contos | Leave a Comment »

O Maestro

Posted by manjivitor em março 4, 2009

Sua pele é de um tom seco e sedoso.
Seus seios se movimentam enquanto respira ofegante.
Ela me olha fixamente. Olhos bem abertos.
Sua boca está entre-aberta, mas não pronuncia nenhuma palavra.
Está agitada por dentro, mas nenhum de seus membros se move.
Sem suor. E espero que fique assim.
Está nua. Olhando fixamente para mim.
– Você sabe o que é o amor? – Pergunto.
Não há resposta. Tudo bem, prefiro assim.
O ambiente não é dos mais reconfortantes. Mas é o suficiente para nós.
O teto é escuro. O chão também. Paredes cinza, com várias ferramentas penduradas.
Ela está ofegante. Olhando para mim.
Será que está com medo? Será sua primeira vez.
Só há uma mesa no meio da sala. Vai servir. Uma mesa em metal prateado.
Sinto vontade de beber umas doses de vodka. Sentir o calor no peito. Mas não posso perder esse momento em troca de um topor etílico.
– So close, no matter how far. – Eu canto baixinho.
Será sua primeira vez. Tudo tem quer ser perfeito.
Eu a olho deitada na mesa. Seu corpo nu. Pele quente sobre metal frio. Corpo perfeito.
Como será a orquestra dessa noite? Me pergunto.
Será que sou um grande maestro? Bom o suficiente para ela?
Será que seu corpo tocará a música que quero ouvir?
O momento se aproxima. E eu me aproximo dela.
Seus olhos vidrados em mim.
Um pequeno banco ao lado da mesa apóia minhas coisas.
Toco sua barriga com meu dedo indicador.
Ela recua.
Rápido de mais? Me pergunto.
Passo a mão em seus cabelos. Loiro bonito.
Ela começa a respirar mais ofegante. Está na hora.
Observo seu corpo nu. Mas não me excita. Só quero ouvir a música.
Abro minha bolsa sobre a cadeira. Tantas coisas. Mas gosto dessa.
Pego um bisturi de metal reluzente. Frio.
Ela me olha, parece sentir medo, mas não consigo senti-lo nela.
Boa garota. Será que irá gritar?
Apoio o bisturi, deixando a lamina para fora, assim não tocaria na mesa.
Ando em torno dela, apertando mais suas mãos, pernas e abdomem, mais fortes.
Ah! A música, já posso imaginar as notas.
Vejo seus olhos encherem de lágrimas, mas nenhuma cai. Acho aquilo tão bonito. Uma obra de arte.
Viva, uma obra viva olhando para mim. Seu corpo é uma escultura, uma escultura recheada de notas musicais.
Não vou tampar sua boca. Ela não vai gritar, sei disso. Espero isso.
Volto ao bisturi. Pego-o.
Olho a lâmina. Tão bonita. Mas é só uma ferramenta.
Me aproximo do rosto da garota, ela o vira. Achou que eu fosse beija-la? Haha, tão inocente nesse aspecto, tão bonita.
O barulho do mundo some lá fora da sala. Agora, tudo ali era meu templo.
Coloco a mão abaixo de seu seios e a seguro. Com a mão direita aproximo a lâmina de seu pescoço
Ouço a música bem longe. Vem dela.
Faço um pequeno corte em seu pescoço. Superficial.
Uma gota escorre de seu olho. Tão linda. Olhos lindos.
O sangue escorre lentamente. Uma bela nota. Preciso de mais.
Faço uma incisão profunda entre seus seios. Ela geme. O sangue escorre. Bastante sangue.
Lindo, belas notas. Bela música! Tão boa quanto esperei! Ouço a harmonia do arranjo que escorre ao lado de seus belos seios! Magnifico arranjo!
Corto seu braço agora em um movimento rápido! Ha! Lindo! O crescendo! Corto sua perna, ela geme! Haha, que música maravilhosa!
Faça uma profunda incisão no baixo torax. Deixando as costelas expostas. Magnifico som. Mais belo e afinado que mil harpas de anjos. Uma verdadeira orquestra flui de seus vazos. Perfeita a música. Daria mil vidas para poder ouvi-la para sempre!
Ela chora. Se engasga sozinha com o choro.
Linda! Linda! A Deusa!
Tomo cuidado para não tocar em seu sangue. Não quero estragar o concerto.
Fecho os olhos e ouço a música com atenção. É perfeita! Com a mão, agito o bisturi como um maestro.
E vai chegando ao fim. Só ouço choro agora. Ah… Me sinto otimo. Dizem que a música tem o poder de limpar a alma, e como tem, penso!
Abro os olhos. Lá está ela, sangrando na mesa. Não tanto quanto antes.
– Você é a melhor obra. – Digo. – Você é perfeita. A obra perfeita. Eu te amo.
– Por… – Ela cospe sangue.
Ela vai falar? Tudo bem, ainda estamos no intervalo.
– Me… Deixe – Mais sangue. – Ir… Por…
– Deixar você ir? – Pergunto. – Não. Não se sai no meio do concerto. Só estamos no primeiro ato.
Ela me olha com pavor. Maravilhosa em sua perfeição.
Olho o bisturi. Hora de começar. Me preparo como maestro, e sigo por toda a noite fazendo minha música.

Posted in Contos | Leave a Comment »

Estação

Posted by manjivitor em março 2, 2009

Silêncio. O garoto observa. A estação está quase vazia. Só há uma pessoa sentada na ultima cadeira de espera.
Ele se aproxima tentando não fazer barulho, mas andando calmamente.
É uma garota. Por volta de seus dezesseis anos. Resolve sentar ao seu lado. Não sabe qual a cor do cabelo dela. Nem consegue ver sua face. Mas sabe que não é muito bonita, mas ainda sim atraente do seu jeito peculiar.
– Bom dia. – Ele fala.
Ela olha tímida.
– Bom dia. – Responde.
O silêncio cai por alguns segundos.
– Dia ensolarada, não? – Pergunta o garoto.
– Está chovendo e nublado. – Responde ela, fria.
– Jura, parece ensolarado.
– Não está ensolarado.
Silêncio novamente.
– Vai para onde? – Pergunta ele.
– Qualquer lugar longe.
– Longe da onde?
– De um cara.
– Namorado?
– Menos que isso.
– Amigo?
– Menos que isso.
– Conhecido?
– Menos que isso.
– Então o que?
– Meu único amor. A única pessoa que já amei.
– Hum, entendo.
Ela fica em silêncio novamente.
– Você o odeia?
– De certa forma.
– Por que?
– Por ele ser perfeito.
– E isso é ruim?
– É, quando a perfeição inclui não te amar.
– Estranho.
– Sim…
– Pretende voltar algum dia?
– Espero que não.
– E ele?
– O que tem ele?
– Não se importa com o que ele vai sentir?
– Ele não me ama.
– Talvez ame.
– Não ama.
– Talvez ame, mas não possa.
– Se não pode, não precisa.
– Precisa, mas não deve.
– Por que?
– Por que tem medo de te fazer sofrer.
O silêncio cai novamente.
– Ainda me ama? – Pergunta ela.
– Sempre te amei.
– Perguntei se ainda ama.
– Não posso amar.
– Odeio você.
– Me preocupo com você.
– Não quero sua preocupação, quero seu amor.
– Não vai tê-lo.
Ela chora.
– Por que faz isso comigo?
– Isso o que?
– Me fazer apaixonar por você, mesmo quando me afasta com medo de me fazer amar mais.
– Desculpa. – Diz ele, e se levanta.
– Não se vá…
– E você?
– Eu me vou.
– Não daria no mesmo?
– Não para mim.
– Certeza?
– Espere o trem comigo.
– Claro. – Ele se senta.
O silêncio cai.
– Obrigada por ter vindo.
– Obrigado por ter esperado.
– Eu te amo.
– Eu não.

O trem chega. Ela entra. Ele se levanta e vai embora. Não queria vê-la partindo. De longe ouve o trem se afastar. Agora ela poderia ser feliz. Ele não. Volta para casa. Olha o dia chuvoso pela janela, sobe no parapeito e se deixa levar pelo vento.

Posted in Contos | Leave a Comment »

Matando idéias

Posted by manjivitor em fevereiro 24, 2009

Mais um trabalho bem feito, seja lá o que isso quer dizer. Retiro o Carlton da carteira, ascendo, trago, e penso comigo mesmo, tenho que parar de fumar.

O defunto me encara, como quem encara uma vitrine sem saber de fato o que tem dentro. Confuso? Não tanto quanto a cabeça desse cara, espalhada por todo o carpete. O cheiro do sangue estaria alcançando minhas narinas agora, mas o cigarro impede. Vinte anos na força te ensinam coisas.

O reforço estará chegando daqui a pouco. Gerundismo? Devo estar realmente um caco. Não durmo a dias. Como sempre. Essa monotonia tira a graça do sono. Quando chegarem, será só mais uma vez que direi “defesa, ele partiu para cima de mim”.

Pobre homem. Queria brincar de bandido, mas não leu as regras do jogo. Achou que poderia se livrar de mim assim? Que depois de aceitar a grana eu seria a puta do papai? Não nessa cidade. Não na minha cidade.

A fumaça percorre todo o escuro quarto do hotel. O abajur quebrou quando eu o arremessei nele. As quatro balas na cabeça vieram depois para dizer, não haverá amanhã para você.

Matei algumas idéias. E quem não matou? Podem me culpar? O cara era um qualquer e sou quase imparcial ao dizer que nada sairia dele. Traficantes, eu os desprezo. Trazendo seus produtos e sub-produtos, suas sub-coisas, suas sub-mentes, suas sub-idéias. Como quem traz uma solução genial para um problema complexo de matemática. Queime-o.

Ouço as sirenes ao longe. Sempre tarde. Sempre fazendo alarde.

Meu cigarro chega ao final, arremesso-o no cinzeiro. Olho a carteira. Vazia. Que pena, trocaria três ou quatro traficantes por mais um. Afinal, mesmo que você bote fogo em um drogado, ele ainda vai ter gosto de merda no final.

Os policiais saem de seus carros lá em baixo. Hora de ir.

Posted in Contos | Leave a Comment »