Matando Idéias

Betas, descartes e testes.

Cinema

Posted by manjivitor em maio 2, 2009

O garoto com espinhas apoiava-se no balcão sem entusiasmo. Do outro lado, pessoas andavam em direção a saída. Crianças, velhos e adultos. Mas os que realmente lhe incomodavam eram os adolescentes. Não por serem ingênuos, egoísta e efusivos, mas por estarem acompanhados de suas namoradas. Odiava a todos eles e em sua mente já ouvia novamente a voz de sua mãe: “Porque você não pode ser como os outros garotos? Talvez devesse arrumar uma namorada, bebezão da mamãe!”
– Não sou seu bebezão! – Grita o balconista.
Algumas pessoas que caminhavam lhe olham. Seu rosto fica rubro e algumas adolescentes de allstar que passavam apontam e riem dele. Vira-se para a maquina de pipoca com os punhos cerrados e evitando olhar para elas. Seu ódio fervilha misturado com raiva, e em sua mente palavras de guerra surgem: “Odeio todos vocês! Vocês que riram de mim! Vou matar todos vocês! E os que ficarem vivos se ajoelharam perante a mim! Temam o Senhor do Escuro! Trarei uma era de terror e chamas sobre toda a Terra Média!”
– Duas pipocas médias, por favor – pede um homem.
– É… Só um instante – diz ele murchando por dentro.

A metros dali um casal que caminhava para a saída se assusta com o grito do menino estranho de testa oleosa e camisa do Darth Vader, que vendia pipocas.
– É cada um – Diz o homem gordinho de calça jeans e camisa social azul clara, onde se viam grandes manchas de suor abaixo dos braços. – Só tem maluco nesse shopping, já te disse.
– Ah, você que se irrita com tudo – responde sua mulher de longos cabelos e saia. – Talvez devesse relaxar um pouco.
– Já estou relaxado. Foi um ótimo filme.
– É…
– O que foi? Não gostou dele?
– Você sabe que eu não sou muito fã de musicais, amor.
– Mas não foi um musical!
– Claro que foi. Pessoas cantavam o tempo inteiro e…
– Porque você está querendo brigar comigo?
– O que? – Pergunta ela parando de andar.
– Eu sei que você quer brigar comigo. Quer me irritar. Sei disso. Mas não vai conseguir.
Ela abaixa a cabeça e apóia a mão na testa sem dizer nada.
– Agora vai me ignorar? Tudo bem. Faça como quiser.
– Por que você está gritando? Estamos dentro de um sho…
– Porra, Márcia! Você tá assim comigo desde aquele dia.
– Esse não é o local para…
– Nunca é!
– Calma, amor. Vamos para o carro, vamos.
– Já disse que não quero falar com você!
– Não, você não…
Ele esfrega mão na testa freneticamente.
– disse nada disso – completa ela.
– Tudo bem. Quer brigar? Vamos brigar. Bem aqui no meio do shopping! Para todo mundo ouvir – fala ele alto, quase gritando.
– Amor – chama ela baixinho e disfarçadamente. – Vamos para o carro, por favor.
– Márcia! Márcia! Você me… Márcia! Puta que pariu!
– Calma, vamos para o…
– Márcia! Você me tira do… Márcia!
– Calma, Fábio, por favor. Sua pressão vai…
– Ai! Minha pressão, Márcia!

Um homem desaba no chão. Algumas pessoas param para olhar enquanto outras correm para chamar um segurança e a mulher ao seu lado respira, como que aliviada. Jonas foca melhor a câmera de segurança, do interior de sua salinha, e vê o menino que vende pipocas com as mãos levantadas no ar, como que comemorando algo.
– É cada maluco – Pensa ele e tira o radio de cima da mesa. O liga e faz o chamado: – Sujeito gordo desmaiou na porta do cinema.
Solta o botão e espera a resposta que vem após alguns segundos.
– Ta certo, tem um brigadista indo – respondeu a voz no walkietalkie.
Trabalho feito. Jonas imaginava, enquanto rodava em sua cadeira giratória, que aquele seria o ponto alto de seu dia. Mas como um tiro um pesamento lhe atinge a cabeça. Sua mente considerou inúmeras possibilidades e chegou a conclusão de que provavelmente não haveria problema. “Hehehe”, pensou sua consciência. Correu para a mesa do outro lado da sala, abriu uma gaveta e em seguida sua carteira, que havia estado lá dentro. De lá, tirou um pequeno saquinho recheado do que parecia mato ruminado e um pedacinho de papel.
Dechavou. Enrolou. Lambeu. Pilou. Acendeu e viajou.

Brigadista não era o que ele queria ser. Queria ser bombeiro. Como acabara naquela profissão? Queria salvar pessoas não ajudar gordos desmaiados em shoppings. Queria ser grande, um herói. Seu dia havia sido um lixo. Acordara atrasado, derrubara seu café da manhã e perdera o ônibus duas vezes. Agora era noite, mas passara quase que todo seu dia sentado em uma sala quase vazia, contando com apenas uma TV, rodeado do que ele chamaria de “Muitos Machos” e quase no final de seu turno, um infeliz jogo do palitinho o levara a ter que socorrer o maldito gordo. Nem o conhecia, mas sabia que o odiava. Deve ter passado mal de tanto comer doces. Encheu o cu de jujuba e agora ta peidando açúcar.
Virou a esquina do corredor e viu uma roda de pessoas. Imaginou que no centro estaria a proeminente baleia. Muita conversa. Pessoas discutiam métodos de tratamento para a já diagnosticado, pelo consenso geral dos ali presente, doença cardiovascular. Algumas crianças rodavam em volta da grande roda, como brincando de ciranda, enquanto um garoto estranho de testa sebosa agitava as mãos no ar e gritava: “Fogo, Horror e perdição! Hahaha!”
Adentrou o circulo e viu o gordo no chão. Sua mulher ao lado tinha cara de quem passou o dia revezando entre massagens e banhos de banheira com rosas.
– Espaço, por favor – pediu ele da maneira menos enfática possível esperando que as pessoas decidissem desobedece-lo e resolvessem pular todos juntos sobre o gordo.
– O que ele tem, doutor? – Perguntou uma velha que viera do outro lado do shopping atraída pelo cheiro de desgraça alheia.
– Não sou médico – respondeu.
– Então o que faz aqui? – Perguntou ela.
“O que faz aqui”. As palavras ressoavam em sua mente. O que eu faço aqui? Repetia para si mesmo. Deixou-se perder em devaneios. Saiu da roda. Caminhou até a parede. Sentou e ascendeu um cigarro. “O que eu faço aqui?”

“Ronaldo”. Pensava Cássio, o segurança enquanto assistia a um jogo de futebol na telona de LCD, que jamais teria, através da vitrine das Casas Bahia. Ao longe ouvia pessoas correndo. Sua mente se alertou como um suricate na savana. As palavras já vinham em sua mente: “Não pode correr por aqui”. Poderia dar uma bronca em mais adolescentes! Uh! Era um pensamento quase orgásmico.
– Moço! Moço! Ajuda!
Droga. Pensou ele virando-se.
– Tem uma moça passando mal na porta do cinema! – Falou umas das mulheres que havia chegado.
– Não foi uma moça! Foi um gordo – dizia outra.
Não sabia em quem confiar. Não sabia mesmo se deveria confiar em alguém. Seu instinto era um predador, e os domínios daquele grande aglomerado de lojas eram a sua selva. Iria atrás do seu moça-gordo.
– Ok, me levem lá – disse ele passivamente.
Correram de volta em um pequeno trote. A cena não era das mais agradáveis. Velhas gritavam por todos os lados. Via uma roda de pessoas ao redor do que parecia ser um sujeito rechonchudo e suado. Ao lado, crianças dançavam seu ballet em torno do circulo enquanto um garoto baixinho e cheio de espinhas agitava os braços e gritava: “Morte! Morte a todos! Sintam a ira de Khan!” e um sujeitos vestido de brigadista apoiava-se na parede e fumava um cigarro. Não daria conta de tudo. Pegou o walkietalkie e apertou seu botão.
– Jonas – chamou ele. – Jonas? Ta aí?
Nenhuma resposta. Repetiu.
– Jonas? Porra, Jonas! Ta aí?
E uma voz soou do walkietalkie cantarolando.
– Don’t worry, about nothing. Cuz every little thing, is gonna be alright! Tchuruchuchu tchururu!
Aquele não era um bom dia. Definitivamente.

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