Matando Idéias

Betas, descartes e testes.

Archive for abril \22\UTC 2009

Danilo

Posted by manjivitor em abril 22, 2009

Danilo era uma pessoa normal. Viveu boa parte da vida em uma cidade de interior onde não tinha amigos. Aos 11, foi morar com os pais em uma cidade média. Teve dificuldades de se adaptar aos novos amigos que não tinha. Seu pai não falava muito, e todas as tentativas de Danilo de conversa acabavam o fazendo levar um cerveja para ele. Sua mãe não falava muito. Muda desde a infância após ter sido estuprada por um carteiro.

Mas o garoto crescera, agora um adolescente. Espinhas, fimose e muitas horas gastas na ducha com revistas que claramente diziam na capa serem “Proibidas para Danilo”. Conquistara um amigo, amizade essa que durou cerca de 4 meses quando o menino com leve paralisia mental, mal hálito, cara de Síndrome de Down e que usava óculos lhe chamou de “Babacão” e foi sentar no outro lado do refeitório. Não conseguia uma namorada. Não conseguia sequer chegar perto de uma menina. E as vezes sentia que fazia algo de errado quando pensava em alguma delas.

Mas o adolescente crescera. Após terminar o ensino-médio, fez 1 ano de cursinho preparatório para o vestibular. Não passou. Arranjou um pequeno emprego e pagou o curso novamente. Uma reprovação não iria abala-lo jamais. Perseverou e passou na segunda tentativa.

Faculdade. Via toda uma gama de experiencias novas pipocar diante de seus olhos. Como muitos de sua época, acreditava que a faculdade seria um antro de conhecimento, recheada das mais belas descobertas e das melhores companhias. Acreditava que viveria pelo conhecimento, e que o conhecimento seria sua arma para enfrentar o mundo. Isso até perceber que metade das provas que fazia eram sobre conteúdos que seus professores não deram aula. Que seus professores eram seres maus, quase demoníacos que exigiam o que nenhum ser humano sem quantidade enormes de cafeína pudesse agüentar. Danilo chegou a exaustão. Mas havia terminado seu curso. Sentia-se dez anos mais velho e não tinha completa certeza se havia se livrado do vício em café. Mas não era hora para pensar aquilo.

O mundo. “Cuidado pois estou indo ai, e você está na minha mão” – pensava. Mas passara quase um ano sem emprego, sofrendo ameaças constantes de seus pais de o expulsar de casa. Decidiu então mudar de cidade. Sabia que lá no fundo, o que lhe fazia mais mal era aquela cidade. Mudou-se.

Cidade nova. Novos ares. Novas pessoas. Nada de parentes. Via no horizonte uma era de iluminação para sua vida. Conseguira um emprego como professor em uma escola mediana no centro da cidade. Daria aula para o ensino-médio, diziam. Mas no fundo ele não se importava para quem daria aula. Só queria da-la. Queria mudar o mundo. Ser o melhor dos professores. Ser o que nenhum professor havia sido para ele. Iria criar pensadores, seres inteligentes, com cabeças próprias prontos para enfrentar o mundo. Faria aulas dinâmicas, concursos, daria seu sangue e tudo que fosse necessário para atrair atenção daquelas sementes de um futuro melhor.

E o tempo passou. Acreditou que muitas vezes havia conseguido. Mas não tinha certeza sobre nenhuma. Os anos iam passando cada vez mais rápido, como um trem que deixava a vida. Sua animação murchara. Seu entusiasmo morrera. Seu sonho esfarelava mais a cada dia. Quantos anos já havia vivido, se perguntava. 40 anos? É tempo de mais para não ter feito nada. Mas já era tarde agora. Suas aulas já não eram as mesmas, apenas enchia o quadro com o que podia e aguardava sem ansiedade o sinal da próxima aula. Só queria ficar ali, sentado. Apático.

– Professor.

Ouvira de longe uma voz feminina lhe chamando dentro da sala de aula e lhe tirando vagamente de seus pensamentos sobre a vida. Uma estudante qualquer, pensava. Sua mente automaticamente a ignorou.

– Professor – repetiu ela. – Como eu calculo a tensão dessa mola da questão 1?

Insistente, pensou ele em seu topor. Ele levanta a cabeça que estava apoiada na mão e a observa. Que calça era aquela que a menina usava? Chegava até o umbigo. Essa moda não acabou a uns 20 anos atrás?

– Professor o senh…

E aquele menino sentado a frente dela. Que cabelo era aquele. Roxo? Ele tem brincos na cara. E sua atenção volta para a menina. Sua boca meche, mas sua cabeça ignora os sons. Essa calça é…

– … a mola da questão 1?

– Tão alta – fala ele sem querer.

– O que? – Pergunta a menina.

– É… Tensão alta.

– Mas qual é a…

O sinal toca. É como um orgasmo. O último sinal. O tão sagrado último sinal.

Ele sai, abre seu armário, pega sua coisas e se arrasta lentamente até o carro ignorando os comprimentos de outros membros docentes.

O que faria agora? Não tinha namorada. Não tinha amigos. Iria para casa.

Dirige calmamente, ignorando os chingamentos. Passa por 30 outdoors diferentes e não sente vontade de comprar nada oferecido, inclusive a incrível sandália da Xuxa ou assinar a Sky Hd. Só queria ir para casa.

E chega. Abre a porta e anda até a cozinha. Fedia mofo. Ele arremessa a chave do carro em cima da mesa. Errou. Abre a geladeira e não vê nada nutritivo. Pega uma cerveja e caminha para o sofá e se senta.

Liga e não há nada de interessante passando. Mas não que ele se importasse. Só queria se sentir acompanhado. Abre a cerveja e a olha. Bolhas. Lembrara-se de um conto de Woody Allen que lera anos antes. Se o universo estava mesmo em expansão, será que um dia ele deixaria de encontrar suas roupas? Afinal… O universo. Que coisa estranha, pensa ele. Tão grande e ainda ficando maior. É como uma distância dentro de outra dentro de mais uma, envolvida por uma outra distância que não parecia existir como comprimento, dentro de outras distância mais estranhas ainda. Ah! O universo. Uma talvez-esfera dentro de um talvez-universo com mais talvez-dimensões talvez dentro de outro talvez-universo. E ele ali. Bebendo uma talvez-cerveja não muito boa. Vendo um talvez-programa bom. Tendo sua talvez-vida. Se sentia doente. Melhor não dar aula amanhã.

Talvez fosse melhor.

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Pause Break

Posted by manjivitor em abril 12, 2009

Às vezes, viver realmente me cansa. É como estar em um video-game sem direito a pausa e, das profundezas da minha alma e de todo meu coração, isso me enche o saco. Não se engane, gosto de jogar, mas de quando em vez this really piss me off.

Preciso de férias, Gandalf!

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