Matando Idéias

Betas, descartes e testes.

Estação

Posted by manjivitor em março 2, 2009

Silêncio. O garoto observa. A estação está quase vazia. Só há uma pessoa sentada na ultima cadeira de espera.
Ele se aproxima tentando não fazer barulho, mas andando calmamente.
É uma garota. Por volta de seus dezesseis anos. Resolve sentar ao seu lado. Não sabe qual a cor do cabelo dela. Nem consegue ver sua face. Mas sabe que não é muito bonita, mas ainda sim atraente do seu jeito peculiar.
– Bom dia. – Ele fala.
Ela olha tímida.
– Bom dia. – Responde.
O silêncio cai por alguns segundos.
– Dia ensolarada, não? – Pergunta o garoto.
– Está chovendo e nublado. – Responde ela, fria.
– Jura, parece ensolarado.
– Não está ensolarado.
Silêncio novamente.
– Vai para onde? – Pergunta ele.
– Qualquer lugar longe.
– Longe da onde?
– De um cara.
– Namorado?
– Menos que isso.
– Amigo?
– Menos que isso.
– Conhecido?
– Menos que isso.
– Então o que?
– Meu único amor. A única pessoa que já amei.
– Hum, entendo.
Ela fica em silêncio novamente.
– Você o odeia?
– De certa forma.
– Por que?
– Por ele ser perfeito.
– E isso é ruim?
– É, quando a perfeição inclui não te amar.
– Estranho.
– Sim…
– Pretende voltar algum dia?
– Espero que não.
– E ele?
– O que tem ele?
– Não se importa com o que ele vai sentir?
– Ele não me ama.
– Talvez ame.
– Não ama.
– Talvez ame, mas não possa.
– Se não pode, não precisa.
– Precisa, mas não deve.
– Por que?
– Por que tem medo de te fazer sofrer.
O silêncio cai novamente.
– Ainda me ama? – Pergunta ela.
– Sempre te amei.
– Perguntei se ainda ama.
– Não posso amar.
– Odeio você.
– Me preocupo com você.
– Não quero sua preocupação, quero seu amor.
– Não vai tê-lo.
Ela chora.
– Por que faz isso comigo?
– Isso o que?
– Me fazer apaixonar por você, mesmo quando me afasta com medo de me fazer amar mais.
– Desculpa. – Diz ele, e se levanta.
– Não se vá…
– E você?
– Eu me vou.
– Não daria no mesmo?
– Não para mim.
– Certeza?
– Espere o trem comigo.
– Claro. – Ele se senta.
O silêncio cai.
– Obrigada por ter vindo.
– Obrigado por ter esperado.
– Eu te amo.
– Eu não.

O trem chega. Ela entra. Ele se levanta e vai embora. Não queria vê-la partindo. De longe ouve o trem se afastar. Agora ela poderia ser feliz. Ele não. Volta para casa. Olha o dia chuvoso pela janela, sobe no parapeito e se deixa levar pelo vento.

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