Matando Idéias

Betas, descartes e testes.

Archive for março \08\UTC 2009

Os três

Posted by manjivitor em março 8, 2009

Ela olha em volta. Os azulejos brancos do banheiro parecem perder seus contornos, depois voltam ao normal quando ela desvia sua atenção deles. Olha o tapete, antes felpudo, agora recheados de pequenas cobras que oscilam como que mergulhadas em águas com correnteza.

Olha no espelho. Mas não vê a si mesma. Sente-se expandir para fora de si, como se não coubesse dentro de seu próprio corpo.

Um vento percorre o banheiro. Mas a janela está fechada. Resolve sair.

– Boa noite – Diz o sujeito de cartola sentado na cama, apoiando suas mãos sobre uma bengala.

– Boa noite. Quem é você? – Pergunta ela.

– Não fará diferença.

– É, você provavelmente está certo. – Ela caminha pelo quarto, sentindo o carpete acariciar seus pés, enquanto as sombras dançam a sua volta e ela se senta na cama ao lado do sujeito.

O observa por um tempo.

– Eu acho que te amo. – Diz ela.

– Eu sei que me ama. Também amo você.

– Mas eu não te conheço, como posso te amar?

– Você me conhece. Só nunca me viu com um rosto.

– Tenho vontade de beija-lo, tenho vontade de bebe-lo, tenho vontade de transar com você.

– Também tenho. – Diz o homem de cartola que parece se distanciar.

Ela aproxima sua boca da dele e o beija. Como se um tiro atravessasse sua mente, ela tem um orgasmo que parece durar anos.

Quando percebe, ele não está mais lá. Mas ela sente vontade dele. Levanta, sente o mundo levantando também, e espera ele se acalmar. Anda até o banheiro.

Não o vê. Lá, apenas a banheira onde pingüins completamente brancos brincam, os azulejos alterando seus formatos em coro e a seringa no chão, onde ainda resta um liquido marrom com cheiro forte. Ela pode sentir o cheiro a metros de distância. Um cheiro doce e salgado.

Se vira e volta para o quarto. Encostado na parede existe um homem bem vestido. Roupa social.

– Olá? – Pergunta ela.

– Bom dia. – Diz a voz calma do homem. Tão calma que a irrita um pouco.

– Quem é você?

– Posso lhe ajudar a descobrir.

– Não quero que me ajude, quero que me fale.

– Você parece irritada. Isso não faz bem para você. Acalme-se. – Ele anda em sua direção.

– Não quero me acalmar.

Nas paredes do quarto, sombras começam a dançar em roda, como se no centro do quarto houvesse uma fogueira.

– Vá embora. – Diz ela deitando-se na cama e olhando para o teto espelhado. Sem reflexo dela mesma.

– Talvez você devesse procurar ajuda.

– Não preciso de ajuda.

– Acho que precisa. Isso não pode acabar…

– Vá embora! – Ela grita o interrompendo.

Silêncio, mas tudo ainda parece barulhento, como se as cores fossem sons ou como se houvesse uma orquestra de música estranha escondida no fundo da sua mente, esperando para sair sempre que pudesse.

Os pingüins parecem ter saído da banheira, e dançam pelo quarto tentando molhar uns aos outros com os baldes que carregam.

Os lençóis viram água e ela bóia sobre eles enquanto se lembra do cavalheiro de cartola. Uma ponta de tesão lhe desce a espinha. Ela desliza as mãos, desde o pescoço, passando pelos seios até chegar a virilha. Acaricia a si mesma, e fecha os olhos sentindo-se flutuar.

– Olá. – Soa uma voz perto dela.

A garota abre os olhos. Ao seu lado na cama, um homem vestido em trapos a observa.

– Quem diabos é você? – Pergunta ela.

– Talvez você devesse parar de perguntar coisas que não precisa saber, e concentrar-se em fazer algo para ela.

– Ela quem?

– Ela.

– O que?

– Levante-se.

Como que obedecendo ao homem, seu corpo se senta na cama.

– Agora vá.

Ela luta contra o impulso de se levantar. Sacode as mãos na direção do homem querendo lhe arranhar, rasgar, cortar, apertar.

O homem some entre seus dedos. E ela cai da cama.

Olha para a porta do banheiro. Lá está ele. Ela corre na direção oposta, e se vê na sacada do quarto. Lá em baixo, luzes correm por linhas pretas e dragões dançam por trás dos prédios.

Sua camisola está rasgada. É cor de pérola.

– Não deveria fugir. Deveria desejar fazer o que precisa ser feito.

– Vá embora!

Ela rasteja até bater no gradeado de arabescos da sacada.

– Ame.

– Vá embora!

Ela se levanta. Olha lá para baixo. Está tudo tão suave. Talvez devesse pular.

– Não faça isso.

– Vá embora! – Diz ela subindo na grade.

– Não faça isso.

– Vá embora!

Os pingüins passam correndo por debaixo da perna do homem e começam a dançar enlouquecidamente pela sacada, pulando todos, um atrás do outro, após alguns segundos.

Ela os olha cair, e lá embaixo, mergulham naquele mar preto recheado de peixes vermelhos e amarelos.

Deixa seu corpo cair. E após um tempo que parece uma insanidade toca o chão.

Sua cabeça dói. Olha em volta, está em um banheiro, deitada no chão próxima a privada.

Há uma seringa no chão.

– Como sempre. – Diz para si mesmo.

Sua boca está seca. Levanta-se e se olha no espelho apoiando os braços na pia. Sua cara está um desastre. Olheiras profundas.

Abre a torneira, joga água na cara e depois bebe um grande gole.

Ouve passos. Alguém abre a porta do quarto.

Se vira, e vê uma garotinha parada a olhando.

– Mamãe? Você está bem?

– Claro filha. Vá lá brincar no seu quarto, mamãe vai tomar banho.

– Ok. – Diz a menina olhando para a seringa no chão, depois sai do quarto.

Ela espera a filha sair, como que para dizer “não é minha”, e pega a seringa do chão e joga na lixeira.

Anda até o quarto e se deita na cama.

Na criado mudo, um cartão. Ela o pega e o lê. Há apenas um numero de um telefone no verso, enquanto na frente, uma pequena ilustração de uma cartola.

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O Maestro

Posted by manjivitor em março 4, 2009

Sua pele é de um tom seco e sedoso.
Seus seios se movimentam enquanto respira ofegante.
Ela me olha fixamente. Olhos bem abertos.
Sua boca está entre-aberta, mas não pronuncia nenhuma palavra.
Está agitada por dentro, mas nenhum de seus membros se move.
Sem suor. E espero que fique assim.
Está nua. Olhando fixamente para mim.
– Você sabe o que é o amor? – Pergunto.
Não há resposta. Tudo bem, prefiro assim.
O ambiente não é dos mais reconfortantes. Mas é o suficiente para nós.
O teto é escuro. O chão também. Paredes cinza, com várias ferramentas penduradas.
Ela está ofegante. Olhando para mim.
Será que está com medo? Será sua primeira vez.
Só há uma mesa no meio da sala. Vai servir. Uma mesa em metal prateado.
Sinto vontade de beber umas doses de vodka. Sentir o calor no peito. Mas não posso perder esse momento em troca de um topor etílico.
– So close, no matter how far. – Eu canto baixinho.
Será sua primeira vez. Tudo tem quer ser perfeito.
Eu a olho deitada na mesa. Seu corpo nu. Pele quente sobre metal frio. Corpo perfeito.
Como será a orquestra dessa noite? Me pergunto.
Será que sou um grande maestro? Bom o suficiente para ela?
Será que seu corpo tocará a música que quero ouvir?
O momento se aproxima. E eu me aproximo dela.
Seus olhos vidrados em mim.
Um pequeno banco ao lado da mesa apóia minhas coisas.
Toco sua barriga com meu dedo indicador.
Ela recua.
Rápido de mais? Me pergunto.
Passo a mão em seus cabelos. Loiro bonito.
Ela começa a respirar mais ofegante. Está na hora.
Observo seu corpo nu. Mas não me excita. Só quero ouvir a música.
Abro minha bolsa sobre a cadeira. Tantas coisas. Mas gosto dessa.
Pego um bisturi de metal reluzente. Frio.
Ela me olha, parece sentir medo, mas não consigo senti-lo nela.
Boa garota. Será que irá gritar?
Apoio o bisturi, deixando a lamina para fora, assim não tocaria na mesa.
Ando em torno dela, apertando mais suas mãos, pernas e abdomem, mais fortes.
Ah! A música, já posso imaginar as notas.
Vejo seus olhos encherem de lágrimas, mas nenhuma cai. Acho aquilo tão bonito. Uma obra de arte.
Viva, uma obra viva olhando para mim. Seu corpo é uma escultura, uma escultura recheada de notas musicais.
Não vou tampar sua boca. Ela não vai gritar, sei disso. Espero isso.
Volto ao bisturi. Pego-o.
Olho a lâmina. Tão bonita. Mas é só uma ferramenta.
Me aproximo do rosto da garota, ela o vira. Achou que eu fosse beija-la? Haha, tão inocente nesse aspecto, tão bonita.
O barulho do mundo some lá fora da sala. Agora, tudo ali era meu templo.
Coloco a mão abaixo de seu seios e a seguro. Com a mão direita aproximo a lâmina de seu pescoço
Ouço a música bem longe. Vem dela.
Faço um pequeno corte em seu pescoço. Superficial.
Uma gota escorre de seu olho. Tão linda. Olhos lindos.
O sangue escorre lentamente. Uma bela nota. Preciso de mais.
Faço uma incisão profunda entre seus seios. Ela geme. O sangue escorre. Bastante sangue.
Lindo, belas notas. Bela música! Tão boa quanto esperei! Ouço a harmonia do arranjo que escorre ao lado de seus belos seios! Magnifico arranjo!
Corto seu braço agora em um movimento rápido! Ha! Lindo! O crescendo! Corto sua perna, ela geme! Haha, que música maravilhosa!
Faça uma profunda incisão no baixo torax. Deixando as costelas expostas. Magnifico som. Mais belo e afinado que mil harpas de anjos. Uma verdadeira orquestra flui de seus vazos. Perfeita a música. Daria mil vidas para poder ouvi-la para sempre!
Ela chora. Se engasga sozinha com o choro.
Linda! Linda! A Deusa!
Tomo cuidado para não tocar em seu sangue. Não quero estragar o concerto.
Fecho os olhos e ouço a música com atenção. É perfeita! Com a mão, agito o bisturi como um maestro.
E vai chegando ao fim. Só ouço choro agora. Ah… Me sinto otimo. Dizem que a música tem o poder de limpar a alma, e como tem, penso!
Abro os olhos. Lá está ela, sangrando na mesa. Não tanto quanto antes.
– Você é a melhor obra. – Digo. – Você é perfeita. A obra perfeita. Eu te amo.
– Por… – Ela cospe sangue.
Ela vai falar? Tudo bem, ainda estamos no intervalo.
– Me… Deixe – Mais sangue. – Ir… Por…
– Deixar você ir? – Pergunto. – Não. Não se sai no meio do concerto. Só estamos no primeiro ato.
Ela me olha com pavor. Maravilhosa em sua perfeição.
Olho o bisturi. Hora de começar. Me preparo como maestro, e sigo por toda a noite fazendo minha música.

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Estação

Posted by manjivitor em março 2, 2009

Silêncio. O garoto observa. A estação está quase vazia. Só há uma pessoa sentada na ultima cadeira de espera.
Ele se aproxima tentando não fazer barulho, mas andando calmamente.
É uma garota. Por volta de seus dezesseis anos. Resolve sentar ao seu lado. Não sabe qual a cor do cabelo dela. Nem consegue ver sua face. Mas sabe que não é muito bonita, mas ainda sim atraente do seu jeito peculiar.
– Bom dia. – Ele fala.
Ela olha tímida.
– Bom dia. – Responde.
O silêncio cai por alguns segundos.
– Dia ensolarada, não? – Pergunta o garoto.
– Está chovendo e nublado. – Responde ela, fria.
– Jura, parece ensolarado.
– Não está ensolarado.
Silêncio novamente.
– Vai para onde? – Pergunta ele.
– Qualquer lugar longe.
– Longe da onde?
– De um cara.
– Namorado?
– Menos que isso.
– Amigo?
– Menos que isso.
– Conhecido?
– Menos que isso.
– Então o que?
– Meu único amor. A única pessoa que já amei.
– Hum, entendo.
Ela fica em silêncio novamente.
– Você o odeia?
– De certa forma.
– Por que?
– Por ele ser perfeito.
– E isso é ruim?
– É, quando a perfeição inclui não te amar.
– Estranho.
– Sim…
– Pretende voltar algum dia?
– Espero que não.
– E ele?
– O que tem ele?
– Não se importa com o que ele vai sentir?
– Ele não me ama.
– Talvez ame.
– Não ama.
– Talvez ame, mas não possa.
– Se não pode, não precisa.
– Precisa, mas não deve.
– Por que?
– Por que tem medo de te fazer sofrer.
O silêncio cai novamente.
– Ainda me ama? – Pergunta ela.
– Sempre te amei.
– Perguntei se ainda ama.
– Não posso amar.
– Odeio você.
– Me preocupo com você.
– Não quero sua preocupação, quero seu amor.
– Não vai tê-lo.
Ela chora.
– Por que faz isso comigo?
– Isso o que?
– Me fazer apaixonar por você, mesmo quando me afasta com medo de me fazer amar mais.
– Desculpa. – Diz ele, e se levanta.
– Não se vá…
– E você?
– Eu me vou.
– Não daria no mesmo?
– Não para mim.
– Certeza?
– Espere o trem comigo.
– Claro. – Ele se senta.
O silêncio cai.
– Obrigada por ter vindo.
– Obrigado por ter esperado.
– Eu te amo.
– Eu não.

O trem chega. Ela entra. Ele se levanta e vai embora. Não queria vê-la partindo. De longe ouve o trem se afastar. Agora ela poderia ser feliz. Ele não. Volta para casa. Olha o dia chuvoso pela janela, sobe no parapeito e se deixa levar pelo vento.

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