Matando Idéias

Betas, descartes e testes.

Projeto Um – Capítulo Segundo

Posted by manjivitor em fevereiro 26, 2009

O sol do final da tarde invade a biblioteca pela enorme janela, espalhando seu tom poente pelas pilhas de livros no chão e pelas grandes estantes de madeira negra, preenchidas com os mais diversos livros, que tomavam todas as paredes. Os manuscritos antigos recém adquiridos, amarrados com pequenas tiras de couro, jaziam em um canto da grande sala sobre os tapetes, onde Edgard os lia sentado em uma poltrona de madeira acolchoada confortável.

Não somente o cheiro daquele papel amarelo envelhecido lhe agradava, mas as informações contidas nele. Diários e cartas da guerra de séculos atrás, preservadas em pequenos baús soterrados em uma ruína próximas a floresta que levava para a Agália.

Pelo que as cartas indicavam, séculos atrás, aquelas ruínas serviram como posto militar. Mas não tinha tanta certeza quanto ao fim que aquele lugar teve. Provavelmente arruinado na guerra. De qualquer forma, tenta considerar esses detalhes secundários e volta a reler trechos soltos, foleando rápido os papeis, pensando em ler tudo meticulosamente mais tarde.

… o segundo carregamento chegou hoje. Enviaremos pela rota principal… ”

… a guerra já estava ganha antes de começar. Tudo que se faz em Agália é assassinar pessoas… Ordens de Telú…”

… Diga a filha que volto em breve… ”

… sofremos uma emboscada a beira da montanha. Dois nossos e doze deles morreram… ”

Seus olhos correm rápidos pelas páginas atentando em um trecho ou outro. Cartas para familiares, registros de suprimentos, diários de batalha e algumas outras coisas. Aquele velho Senhor não saberia o valor histórico daqueles baús ao encontra-los por acaso nas ruínas, e suponho que valor histórico não seja uma moeda corrente por aqui, pensa. Sorte a minha compra-los.

Edgard ouve passos no corredor, e sua atenção se desvia dos escritos. Passos calmos, suaves. Um sorriso lhe chega a boca.

Samantha abre a porta da biblioteca e entra. Vestida em um comprido e casual vestido branco de algodão. Seus longos cabelos deitados tranqüilos por cima do ombro direito. O brilho do por-do-sol tocando sua face delicada de traços finos realçando uma beleza natural.

Edgard se levanta e devolve os papéis para a pilha.

– Posso saber porque os mistérios do mundo resolveram lhe presentear com toda essa beleza? – Pergunta ele com cordialidade e poesia, olhando sua amada caminhar em sua direção.

– Foi para agradar ao mais belo dos homens. – Diz ela aproximando-se dele para brincar com seus longo cabelos negros. Samantha observa seu amado. Alto, de corpo bem feito, rosto de traços nem finos nem grossos e o que mais chamava atenção, olhos negros como os cabelos, como que conflitando com toda a luz do ambiente para continuar existindo. Olhos onde ela gostava de se deixar perder sempre que podia.

– Quando encontrar o tal mais belo, diga que não pode ficar com ele, pois o mais apaixonado de já lhe tem. – Responde.

– Bobo. – Diz ela dando lhe um beijo demorado, e mordendo seus lábios de leve ao final.

– Sempre fui.

Comenta ele, e volta a beija-la, agora intensamente, banhados pela luz de um sol que morre ao poucos não querendo nascer de novo pela manhã.

Depois de alguns minutos, o trote de cavalos ao longe lhes chama a atenção. O ultimo raio de sol morre no horizonte e a noite chega.

– Quem será? – Pergunta ela.

– Espero que alguém que não queira ficar muito. – Responde Edgard dando lhe um beijo e indo em direção a janela olhar. Ela o acompanha.

Lá em baixo vêem uma carruagem de aparência fina e formal entrar no terreno, puxada por dois cavalos robustos chicoteados por um colcheiro baixinho de cabelos negros..

– Problemas. – Diz Samantha saindo rápido da sala. – Fique aqui, Edgard. Vai ser melhor.

Pensa que não seria bom ser avistado por um Senhor. Podem começar a desconfiar. Mas resolve descer atrás de Samantha para o andar de baixo quando ouve alguém bater a porta.

Sai da sala apressado, e desce as escadas até o segundo andar pulando de dois em dois degraus. Parando na curva da escada para o primeiro andar, onde se esconde e tenta ver quem são os visitantes e o que querem, sem que sua presença seja notada.

Vê parado na porta, a frente de Samantha, um homem e uma mulher. O homem aparenta ter trinta anos. Longos e claros cabelos loiros que lhe alcançam as costas. Veste-se formal, colete de linho, tons de verde escuro quase preto, botas marrons e nas costas uma capa pesada e escura. Algo naquele homem lhe faz sentir medo. Como se a alma daquele Senhor transbordasse de seu corpo e preenchesse o ambiente com suas intenções.

Seus olhos recaem sobre a acompanhante. Aparenta ter vinte anos e não mais que isso. Cabelos curtos não alcançando os ombros, mais tão claros quanto os do homem. Veste-se com roupas militares. Algodão sem tingimento; botas grossas de cavalaria; armadura simples, mas nobre. Ombreiras, peitoral, braçadeiras. Um soldado? Mas não há inimigos…

Ahava. – Soa a voz de Samantha dirigindo-se ao homem. – Boa noite.

– Boa noite, Samantha. – responde o homem. – A tempos que meus olhos não tocam sua beleza. E com que felicidade digo, que continua tão bonita quanto anos atrás.

– Nem todos tem a idade do diabo, como você.

– Agressiva? A idade não deveria ser um problema para nós. Assim como não é para mim. – Diz o visitante.

Edgard sente-se atordoado pelo tom do homem, como se sua voz carregasse história, conhecimento, ponderação.

– Pena que muitos de nós esqueceram quão forte somos. – Completa Ahava. – Cada dia que passa, mais me envergonho do que estamos nos tornando.

– Muitos de nós só querem viver suas vidas. Os erros do passado devem permanecer no passa…

– Não há erros no passado. – Interrompe Ahava sem alterar o tom de voz ou mesmo sua presença. – O erro foi ter continuado aqui. Não irá me convidar para entrar? – Pergunta o visitante dando um passo a frente.

– Sei que não quer se demorar. Ficamos aqui.

– Que seja. Suponho que conheça minha filha, Calmá? – Pergunta ele olhando para a jovem ao seu lado.

Edgard força a vista procurando semelhanças entre os dois, e acha apenas algumas poucas a aquela distância.

– Conheço apenas de história. – Fala Samantha virando-se para Calmá. – Muda, não é? Trágico. Mas ela não parece ter muito o que falar. – Provoca olhando sua reluzente armadura.

– Um pequeno infortúnio. – Comenta ele. – Suponho que saiba também, doce Senhora, que a mãe de Calmá morreu alguns anos atrás.

– Doente, certo? – Pergunta cerrando as mãos, como quem se incomoda cada vez mais com o rumo rápido da conversa. – Parece que nem você pode fazer algo.

– Tem anos o suficiente para saber que uma doença não seria problema para minha família. – Diz Ahava.

– Logo seu falecimento se deve apenas a sua morbidez e indiferença? – Arrisca Samantha, cada vez mais sentindo o peso do medo naquele local, fluir do visitante.

– Case-se comigo. – Irrompe Ahava.

O silêncio toma o ambiente por alguns segundos.

– Não tenho interesse. – Diz ela cerrando mais ainda as mãos que começam a tremer.

– Não foi um pedido. Sei sobre você e o humano.

Novamente a sala mergulha em silêncio. Edgard não se acostuma com o ritmo da conversa dos dois. É como se ambos soubessem mais do que falassem, e falassem mais do que dissessem.

– Não faça nada a ele… – Uma lágrima escorre pelo rosto de Samantha. – Por favor…

– Preferí acreditar no contrário. Mas você desonra os irmãos. – A presença de Ahava parece afogar a sala intensamente. O fogo da lareira começa a balançar mais, como se tentasse fugir dali.

– Por favor. – Várias lágrimas rolam pelo seu rosto e pingam no chão de pedra.

– Gostaria que na grande noite, você estivesse ao meu lado, mas seria mais vergonhoso do que falhar. Siga em paz.

Calmá se move na direção de Samantha que caí no chão ajoelhada desabando em lágrimas, como se soubesse de um futuro ruim inevitável. Calmá a levanta e sem avisos, atravessa com uma de suas mãos o peito de Samantha. Rompe a caixa torácica e aperta seu coração o esmagando.

Voltando a si, como quem se recusa a acreditar que algo tenha acontecido, Edgard desce irracionalmente as escadas correndo na direção de Samantha.

– Então é você. – Comenta Ahava ao ver o jovem humano.

Edgard tem a impressão de estar cada vez mais lento ao se aproximar dos três, como se Ahava sugasse sua força.

Calmá solta Samantha no chão e agarra o humano pelo pescoço com uma mão, levantando-o do chão alguns centímetros sem demonstrar qualquer esforço e o pressiona contra a parede. Edgard se sente sufocado e tenta sem sucesso se soltar de Calmá.

– Sabe garoto, você é o pior tipo de humano que rasteja por esse mundo. Acha que humanos e Senhores são iguais? Que pode se relacionar com uma Senhora assim? Está errado. – Diz Ahava se abaixando e passando a mão direita nos seios ensangüentados de Samantha por alguns segundos. – Sinta-se culpado pela morte dela.

O visitante se levanta. Caminha até Edgard e toca sua face com o sangue de Samantha. Seu toque é mórbido. Parece roubar a consciência.

– Mesmo sem merecer, darei a ela um funeral. – Ahava vira-se para Samantha e estende a mão esquerda em direção a lareira.

Fica em silêncio por alguns segundos e murmura palavras que Edgard não entende, mas se recorda de funerais de Senhores. Após terminar Ahava começa a respirar profundamente e as chamas da lareira sacodem intensamente como que sofrendo.

– Veja queimar, garoto. – Diz ele.

Ahava inspira profundamente, e o fogo da lareira se esvai de uma só vez. Tudo fica escuro. Após alguns segundos, ouve a expiração de Ahava e a escuridão da sala é rompida pela gigantesca labareda de fogo que torna-se o corpo de Samantha.

O cheiro de carne queimada atinge as narinas de Edgard assim como o pavor atinge sua consciência.

Pavor esse que vai tornando se fúria em seu interior a medida em que o corpo de Samantha queima, o ar falta a seus pulmões e o sangue a sua mente. Em um movimento impulsivo, ele estende a mão e agarra uma das espadas ornamentais de coleção presa a parede, e usando toda sua força golpeia a têmpora de Calmá, que o solta em um esguicho de sangue.

Tenta respirar, e tosse. Sua cabeça dói, seu corpo pesa.

Olha para Calmá, e a vê com a mão sobre a ferida que sangrava por todo o rosto. Instintivamente Edgard dirige-se para a escadaria por onde havia descido. Pelo canto do olho, vê Ahava sem demonstrar qualquer interesse em persegui-lo, olhando fixamente Samantha queimar e Calmá se levantando.

Sobe correndo a escadaria e chega ao segundo andar. Em uma tentativa desesperada de evitar uma perseguição, agarra uma mesa que estava no corredor e a derruba escada abaixo junto com vasos e algumas esculturas, percebendo então a ingenuidade de seu plano quando Calmá dobra a curva e pula sem problema sobre a mesa.

Edgard retoma sua corrida, indo agora para o terceiro andar. Percebe não ter muita saída, e entra rápido em uma das salas. Está escuro. Fecha o trinco e anda de costas observando a porta e os pequenos fachos de luz de velas que vinham do corredor passando por de baixo, temendo o que fosse passar por lá.

Ouvidos atentos e amedrontados, como os de um coelho temendo uma raposa, ouvem passos no corredor. Depois silêncio. A lua ilumina fracamente o ambiente pelas frestas da janela fechada. Edgard corre e a abre. O vento da noite acerta seu rosto.

Impossível descer. Olha para trás, e vê uma sala agora iluminada pela fraca luz do luar, recheada de moveis cobertos por panos brancos. Usavam aquela sala como depósito de móveis.

Edgard percebe ainda estar segurando a espada sem fio manchada de sangue, e a ergue em riste, sem muito mais opções, observando a porta.

Imagina que Calmá esteja brincando com ele. Talvez ela goste de causar medo na caça. Uma caçadora…Edgard imagina por que ela não o matara antes. Queria me mostrar Samantha…

A porta se estoura em pedaços de uma só vez, deixando entrar a luz e a silhueta da caçadora. Ela sorri com o rosto ensangüentado

Edgard recua até perto da janela. A caçadora caminha em sua direção lentamente, como que aproveitando todo o sabor do momento. Não só caçadora… Uma sádica…

Ela para a um passo de Edgard. Distancia suficiente para ele acerta-la. E tomado por um impeto irracional, ele a ataca com a espada mirando seu tronco. Ela ergue o braço esquerdo, e para a espada com mão. Edgard tenta puxar a espada, mas ela o faz antes, desarmando-o.

A caçadora ajeita a espada em sua própria mão, e olha para Edgard, sentindo seu medo. Golpeia seu tronco e ele grita.

Uma talha profunda se faz, chegando a marcar os ossos. O sangue pinga sem fim sobre o chão.

Como que aproveitando o último momento, ela passa a mão carinhosamente sobre o rosto de Edgard e dá um beijo em sua bochecha. O levanta pelo pescoço e o atira pela janela. Deixando a lua ser testemunha de um assassinato sem culpa.

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