Matando Idéias

Betas, descartes e testes.

Archive for fevereiro \27\UTC 2009

Canto de viagem

Posted by manjivitor em fevereiro 27, 2009

Perdido e achado.
Esqueça o passado.
Caídos do rio, sem ficarem molhados.

Perdido e achado.
Perdido e achado.
O que já morreu, deve ficar enterrado.

Banidos, talvez.
Do rio para sempre.
Os irmãos, diferentes.
Seguem em frente.

O Brando, pacífico.
Aceitou seu passado.
O Guerreiro, raivoso.
Queria voltar.

Ele queria voltar.

Perdido e achado.
Esqueça o passado.
Caídos do rio, sem ficarem molhados.

Perdido e achado.
Perdido e achado.
O que já morreu, deve ficar enterrado.

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Projeto Um – Capítulo Segundo

Posted by manjivitor em fevereiro 26, 2009

O sol do final da tarde invade a biblioteca pela enorme janela, espalhando seu tom poente pelas pilhas de livros no chão e pelas grandes estantes de madeira negra, preenchidas com os mais diversos livros, que tomavam todas as paredes. Os manuscritos antigos recém adquiridos, amarrados com pequenas tiras de couro, jaziam em um canto da grande sala sobre os tapetes, onde Edgard os lia sentado em uma poltrona de madeira acolchoada confortável.

Não somente o cheiro daquele papel amarelo envelhecido lhe agradava, mas as informações contidas nele. Diários e cartas da guerra de séculos atrás, preservadas em pequenos baús soterrados em uma ruína próximas a floresta que levava para a Agália.

Pelo que as cartas indicavam, séculos atrás, aquelas ruínas serviram como posto militar. Mas não tinha tanta certeza quanto ao fim que aquele lugar teve. Provavelmente arruinado na guerra. De qualquer forma, tenta considerar esses detalhes secundários e volta a reler trechos soltos, foleando rápido os papeis, pensando em ler tudo meticulosamente mais tarde.

… o segundo carregamento chegou hoje. Enviaremos pela rota principal… ”

… a guerra já estava ganha antes de começar. Tudo que se faz em Agália é assassinar pessoas… Ordens de Telú…”

… Diga a filha que volto em breve… ”

… sofremos uma emboscada a beira da montanha. Dois nossos e doze deles morreram… ”

Seus olhos correm rápidos pelas páginas atentando em um trecho ou outro. Cartas para familiares, registros de suprimentos, diários de batalha e algumas outras coisas. Aquele velho Senhor não saberia o valor histórico daqueles baús ao encontra-los por acaso nas ruínas, e suponho que valor histórico não seja uma moeda corrente por aqui, pensa. Sorte a minha compra-los.

Edgard ouve passos no corredor, e sua atenção se desvia dos escritos. Passos calmos, suaves. Um sorriso lhe chega a boca.

Samantha abre a porta da biblioteca e entra. Vestida em um comprido e casual vestido branco de algodão. Seus longos cabelos deitados tranqüilos por cima do ombro direito. O brilho do por-do-sol tocando sua face delicada de traços finos realçando uma beleza natural.

Edgard se levanta e devolve os papéis para a pilha.

– Posso saber porque os mistérios do mundo resolveram lhe presentear com toda essa beleza? – Pergunta ele com cordialidade e poesia, olhando sua amada caminhar em sua direção.

– Foi para agradar ao mais belo dos homens. – Diz ela aproximando-se dele para brincar com seus longo cabelos negros. Samantha observa seu amado. Alto, de corpo bem feito, rosto de traços nem finos nem grossos e o que mais chamava atenção, olhos negros como os cabelos, como que conflitando com toda a luz do ambiente para continuar existindo. Olhos onde ela gostava de se deixar perder sempre que podia.

– Quando encontrar o tal mais belo, diga que não pode ficar com ele, pois o mais apaixonado de já lhe tem. – Responde.

– Bobo. – Diz ela dando lhe um beijo demorado, e mordendo seus lábios de leve ao final.

– Sempre fui.

Comenta ele, e volta a beija-la, agora intensamente, banhados pela luz de um sol que morre ao poucos não querendo nascer de novo pela manhã.

Depois de alguns minutos, o trote de cavalos ao longe lhes chama a atenção. O ultimo raio de sol morre no horizonte e a noite chega.

– Quem será? – Pergunta ela.

– Espero que alguém que não queira ficar muito. – Responde Edgard dando lhe um beijo e indo em direção a janela olhar. Ela o acompanha.

Lá em baixo vêem uma carruagem de aparência fina e formal entrar no terreno, puxada por dois cavalos robustos chicoteados por um colcheiro baixinho de cabelos negros..

– Problemas. – Diz Samantha saindo rápido da sala. – Fique aqui, Edgard. Vai ser melhor.

Pensa que não seria bom ser avistado por um Senhor. Podem começar a desconfiar. Mas resolve descer atrás de Samantha para o andar de baixo quando ouve alguém bater a porta.

Sai da sala apressado, e desce as escadas até o segundo andar pulando de dois em dois degraus. Parando na curva da escada para o primeiro andar, onde se esconde e tenta ver quem são os visitantes e o que querem, sem que sua presença seja notada.

Vê parado na porta, a frente de Samantha, um homem e uma mulher. O homem aparenta ter trinta anos. Longos e claros cabelos loiros que lhe alcançam as costas. Veste-se formal, colete de linho, tons de verde escuro quase preto, botas marrons e nas costas uma capa pesada e escura. Algo naquele homem lhe faz sentir medo. Como se a alma daquele Senhor transbordasse de seu corpo e preenchesse o ambiente com suas intenções.

Seus olhos recaem sobre a acompanhante. Aparenta ter vinte anos e não mais que isso. Cabelos curtos não alcançando os ombros, mais tão claros quanto os do homem. Veste-se com roupas militares. Algodão sem tingimento; botas grossas de cavalaria; armadura simples, mas nobre. Ombreiras, peitoral, braçadeiras. Um soldado? Mas não há inimigos…

Ahava. – Soa a voz de Samantha dirigindo-se ao homem. – Boa noite.

– Boa noite, Samantha. – responde o homem. – A tempos que meus olhos não tocam sua beleza. E com que felicidade digo, que continua tão bonita quanto anos atrás.

– Nem todos tem a idade do diabo, como você.

– Agressiva? A idade não deveria ser um problema para nós. Assim como não é para mim. – Diz o visitante.

Edgard sente-se atordoado pelo tom do homem, como se sua voz carregasse história, conhecimento, ponderação.

– Pena que muitos de nós esqueceram quão forte somos. – Completa Ahava. – Cada dia que passa, mais me envergonho do que estamos nos tornando.

– Muitos de nós só querem viver suas vidas. Os erros do passado devem permanecer no passa…

– Não há erros no passado. – Interrompe Ahava sem alterar o tom de voz ou mesmo sua presença. – O erro foi ter continuado aqui. Não irá me convidar para entrar? – Pergunta o visitante dando um passo a frente.

– Sei que não quer se demorar. Ficamos aqui.

– Que seja. Suponho que conheça minha filha, Calmá? – Pergunta ele olhando para a jovem ao seu lado.

Edgard força a vista procurando semelhanças entre os dois, e acha apenas algumas poucas a aquela distância.

– Conheço apenas de história. – Fala Samantha virando-se para Calmá. – Muda, não é? Trágico. Mas ela não parece ter muito o que falar. – Provoca olhando sua reluzente armadura.

– Um pequeno infortúnio. – Comenta ele. – Suponho que saiba também, doce Senhora, que a mãe de Calmá morreu alguns anos atrás.

– Doente, certo? – Pergunta cerrando as mãos, como quem se incomoda cada vez mais com o rumo rápido da conversa. – Parece que nem você pode fazer algo.

– Tem anos o suficiente para saber que uma doença não seria problema para minha família. – Diz Ahava.

– Logo seu falecimento se deve apenas a sua morbidez e indiferença? – Arrisca Samantha, cada vez mais sentindo o peso do medo naquele local, fluir do visitante.

– Case-se comigo. – Irrompe Ahava.

O silêncio toma o ambiente por alguns segundos.

– Não tenho interesse. – Diz ela cerrando mais ainda as mãos que começam a tremer.

– Não foi um pedido. Sei sobre você e o humano.

Novamente a sala mergulha em silêncio. Edgard não se acostuma com o ritmo da conversa dos dois. É como se ambos soubessem mais do que falassem, e falassem mais do que dissessem.

– Não faça nada a ele… – Uma lágrima escorre pelo rosto de Samantha. – Por favor…

– Preferí acreditar no contrário. Mas você desonra os irmãos. – A presença de Ahava parece afogar a sala intensamente. O fogo da lareira começa a balançar mais, como se tentasse fugir dali.

– Por favor. – Várias lágrimas rolam pelo seu rosto e pingam no chão de pedra.

– Gostaria que na grande noite, você estivesse ao meu lado, mas seria mais vergonhoso do que falhar. Siga em paz.

Calmá se move na direção de Samantha que caí no chão ajoelhada desabando em lágrimas, como se soubesse de um futuro ruim inevitável. Calmá a levanta e sem avisos, atravessa com uma de suas mãos o peito de Samantha. Rompe a caixa torácica e aperta seu coração o esmagando.

Voltando a si, como quem se recusa a acreditar que algo tenha acontecido, Edgard desce irracionalmente as escadas correndo na direção de Samantha.

– Então é você. – Comenta Ahava ao ver o jovem humano.

Edgard tem a impressão de estar cada vez mais lento ao se aproximar dos três, como se Ahava sugasse sua força.

Calmá solta Samantha no chão e agarra o humano pelo pescoço com uma mão, levantando-o do chão alguns centímetros sem demonstrar qualquer esforço e o pressiona contra a parede. Edgard se sente sufocado e tenta sem sucesso se soltar de Calmá.

– Sabe garoto, você é o pior tipo de humano que rasteja por esse mundo. Acha que humanos e Senhores são iguais? Que pode se relacionar com uma Senhora assim? Está errado. – Diz Ahava se abaixando e passando a mão direita nos seios ensangüentados de Samantha por alguns segundos. – Sinta-se culpado pela morte dela.

O visitante se levanta. Caminha até Edgard e toca sua face com o sangue de Samantha. Seu toque é mórbido. Parece roubar a consciência.

– Mesmo sem merecer, darei a ela um funeral. – Ahava vira-se para Samantha e estende a mão esquerda em direção a lareira.

Fica em silêncio por alguns segundos e murmura palavras que Edgard não entende, mas se recorda de funerais de Senhores. Após terminar Ahava começa a respirar profundamente e as chamas da lareira sacodem intensamente como que sofrendo.

– Veja queimar, garoto. – Diz ele.

Ahava inspira profundamente, e o fogo da lareira se esvai de uma só vez. Tudo fica escuro. Após alguns segundos, ouve a expiração de Ahava e a escuridão da sala é rompida pela gigantesca labareda de fogo que torna-se o corpo de Samantha.

O cheiro de carne queimada atinge as narinas de Edgard assim como o pavor atinge sua consciência.

Pavor esse que vai tornando se fúria em seu interior a medida em que o corpo de Samantha queima, o ar falta a seus pulmões e o sangue a sua mente. Em um movimento impulsivo, ele estende a mão e agarra uma das espadas ornamentais de coleção presa a parede, e usando toda sua força golpeia a têmpora de Calmá, que o solta em um esguicho de sangue.

Tenta respirar, e tosse. Sua cabeça dói, seu corpo pesa.

Olha para Calmá, e a vê com a mão sobre a ferida que sangrava por todo o rosto. Instintivamente Edgard dirige-se para a escadaria por onde havia descido. Pelo canto do olho, vê Ahava sem demonstrar qualquer interesse em persegui-lo, olhando fixamente Samantha queimar e Calmá se levantando.

Sobe correndo a escadaria e chega ao segundo andar. Em uma tentativa desesperada de evitar uma perseguição, agarra uma mesa que estava no corredor e a derruba escada abaixo junto com vasos e algumas esculturas, percebendo então a ingenuidade de seu plano quando Calmá dobra a curva e pula sem problema sobre a mesa.

Edgard retoma sua corrida, indo agora para o terceiro andar. Percebe não ter muita saída, e entra rápido em uma das salas. Está escuro. Fecha o trinco e anda de costas observando a porta e os pequenos fachos de luz de velas que vinham do corredor passando por de baixo, temendo o que fosse passar por lá.

Ouvidos atentos e amedrontados, como os de um coelho temendo uma raposa, ouvem passos no corredor. Depois silêncio. A lua ilumina fracamente o ambiente pelas frestas da janela fechada. Edgard corre e a abre. O vento da noite acerta seu rosto.

Impossível descer. Olha para trás, e vê uma sala agora iluminada pela fraca luz do luar, recheada de moveis cobertos por panos brancos. Usavam aquela sala como depósito de móveis.

Edgard percebe ainda estar segurando a espada sem fio manchada de sangue, e a ergue em riste, sem muito mais opções, observando a porta.

Imagina que Calmá esteja brincando com ele. Talvez ela goste de causar medo na caça. Uma caçadora…Edgard imagina por que ela não o matara antes. Queria me mostrar Samantha…

A porta se estoura em pedaços de uma só vez, deixando entrar a luz e a silhueta da caçadora. Ela sorri com o rosto ensangüentado

Edgard recua até perto da janela. A caçadora caminha em sua direção lentamente, como que aproveitando todo o sabor do momento. Não só caçadora… Uma sádica…

Ela para a um passo de Edgard. Distancia suficiente para ele acerta-la. E tomado por um impeto irracional, ele a ataca com a espada mirando seu tronco. Ela ergue o braço esquerdo, e para a espada com mão. Edgard tenta puxar a espada, mas ela o faz antes, desarmando-o.

A caçadora ajeita a espada em sua própria mão, e olha para Edgard, sentindo seu medo. Golpeia seu tronco e ele grita.

Uma talha profunda se faz, chegando a marcar os ossos. O sangue pinga sem fim sobre o chão.

Como que aproveitando o último momento, ela passa a mão carinhosamente sobre o rosto de Edgard e dá um beijo em sua bochecha. O levanta pelo pescoço e o atira pela janela. Deixando a lua ser testemunha de um assassinato sem culpa.

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Projeto Um – Capítulo Primeiro

Posted by manjivitor em fevereiro 26, 2009

A noite estava fria como todas as outras e o vento agitava a grama sempre que podia enquanto Edgard caminhava de volta para sua caseta depois de mais um dia de trabalho para sua Senhora.

A lua, tímida, se escondia atrás de uma nuvem acinzentada enquanto a casa Senhorial, uma grande mansão, fitava soberana o terreno gramado e a floresta ao fundo da pequena caseta, se estendendo para muito além da propriedade, que permanecia em silêncio como que esperando ver pelo menos uma estrela naquela noite nublada.

Pensava consigo mesmo. Havia limpado o primeiro andar inteiro da grande casa e pretendia começar o segundo pela manhã. Teria que dedicar uma maior tempo a prataria que já não era limpa a um bom tempo e poderia começar a enferrujar. Limparia as espadas, escudos e lanças da coleção também. Colocaria os longos tapetes no terraço com chão de pedra polida depois de lavados para secar. Teria que limpar as paredes por detrás das longas tapeçarias, presentes por todo o casarão e recebidas ou compradas em muitas épocas diferentes. Também organizaria novamente alguns livros da biblioteca que sua Senhora deixava sempre largados por toda a casa.

Enquanto caminhava para sua decrépita moradia, que exageradamente chamava de lar e que ficava aos fundos da propriedade de sua Senhora, ele já ouvia seu avô resmungando sozinho lá dentro. O velho Tess, como todos os chamavam, era pai do pai de Edgard e trabalhava para aquela linhagem desde criança.

Diziam que já estava louco de velhice, mas Edgard sentia que de alguma forma gostava muito de seu avô, mesmo que possuísse seus trejeitos loucos e senis, pois afinal era seu único parente vivo e, talvez no fundo de sua personalidade velhaca e irritadiça, morasse uma boa e agradável pessoa que evitava dar as caras.

Chegando próximo a sua caseta, ele já podia ouvir com clareza sobre o que eram os resmungos do velho dessa vez. Algo sobre o frio noturno que invadia sem dificuldades pelas paredes de pedra e parecia não querer mais sair dali. Velhaco enlouquecido, pensava, mas compartilhava de sua opinião sobre aquela casa.

Ambos aprenderam a ama-la independente de seus problemas, mas diferentemente de seu avô, ele a odiava também. Ódio esse não da casa em si, mas do que ela representava.

Edgard, soltando um sorriso debochado pelo canto da boca, como quem sente pena e graça de seu avô ao mesmo tempo, abre a porta e lembra-se tarde de mais de que a mesma estava com problemas. A porta pesada e de madeira ruim começa a cair e ele a segura desajeitado pelo susto e a coloca no lugar de volta depois de entrar, pensando que uma porta nova era mais que necessária. E afinal, por que não uma casa decente? Mesmo uma vida decente?

A caseta de apenas um comodo fora construída para os empregados da linhagem daquela propriedade muito tempo atrás, quando o musgo ainda era jovem e escalava tímido as paredes da mansão, e os ratos da cidade ainda eram poucos.

Possuía uma pequena lareira mal feita em pedras, agora escurecidas pelas chamas, que era suficiente para esquentar ligeiramente aquele comodo quase fétido, onde também eram preparadas as refeições; uma mesa de madeira envernizada que já não contava com seu verniz; par de camas forradas com um colchão rústico e um armário fixo de pedra talhada onde Edgard e seu avô guardavam não só seus pertences, mas também muitas ferramentas e utensílios de trabalho, poucos pratos de metais leves, garrafas de vidro e alguns poucos livros dentre outros objetos essenciais e abandonados, mas não suficientes.

A casa não só tinha aparência de velha e pobre, mas fedia a casa velha e pobre, provavelmente pelos anos de exposição a umidade daquela região montanhosa e florestal, a falta de limpeza regular, ao descaso e principalmente a falta de tempo de todos os que por ali já moraram.

– Se não vadiasse por todo o dia, rapazote molenga, teria tempo para consertar a porta e suas idéias – resmunga o velho magro de cabelos pretos, fracos, longos e embaraçados, fumando seu cachimbo feito de madeira ruim sentado à mesa de costas para a porta onde Edgard estava.

Quanto mais o tempo passa, mais ele fuma para passar o tempo, pensa o garoto sobre o velho.

– Por que não à conserta? Passa os dias fumando esta erva mal cheirosa e grosseira. Não faz mais do que estorvar – provoca o garoto, mesmo sabendo dos problemas de seu avô, e sentindo-se culpado emenda: – Iria fazer bem para sua saúde, Tess.

– Ah! Rapazote miserável! Trabalhei por toda a minha rala vida e agora que o peso acre da velhice me pegou, exige que eu trabalhe e me esforce ainda mais! – Protesta o velho gritando, cuspindo fumaça e gesticulando para o nada com a mão ossuda e enrugada.

– Um pouco de exercício não lhe fará mal, está doente, sabe disso – fala o garoto pousando a mão direita sobre o ombro do velho, o cumprimentando, e indo em direção a sua cama onde se deita ruidosamente, devido as armações antigas da mesma, e cruza os braços atrás da cabeça enquanto fita sem muito entusiasmo o teto mofado pelo tempo, imaginando que histórias teria ele para contar.

O velho solta um resmungo incompreensível junto com uma baforada de fumaça acre e depois de um tempo não vendo reação em seu neto dá uma batida com seu pé no pé da mesa, fazendo o prato metálico sobre ela sacudir e fazer barulho o suficiente para chamar a atenção.

Edgard se levanta de sua cama e vê um prato metálico parcialmente amassado, como de costume para aquela caseta, com comida e um copo com água em cima da mesa. Sente-se um pouco culpado por dizer que seu avô não faz nada e força um sorriso falso para não parecer desconcertado e sem graça, seguido de um “obrigado” que saiu desconfortável, mas justo, da boca.

O garoto então puxa a cadeira velhaca e senta-se à mesa com seu avô e começa a comer, com colheradas cheias, aquele prato de sopa rala de batatas e aproveita o momento para falar. – Amanha a noite trarei mais comida da despensa. Chega de batatas com gosto de ausência, vou trazer algo diferente e que nos mantenha de pé por mais que algumas horas. Alguns grãos e frutas talvez, enquanto não estragam. Melhor nós comermos do que sobrar.

– Batatas bastam para nós. Não deixe sua Senhora Samantha ver você tirando comida da despensa o tempo todo, como um humano desrespeitoso, vai acabar arranjando problemas para nós – fala o velho Tess olhando para o garoto já adolescente que vestia roupas frouxas, encardidas e deixava os longos cabelos pretos caírem sobre a mesa enquanto comia e emendou: – Se bem que a Senhora sempre fora desligada como a mãe. Mas um Senhor normal prefere dar comida aos porcos e aos gatos do mato ou deixar que estrague, do que alimentar um humano com mais do que ele precisa para manter sua miséria de pé e trabalhando.

– Não haverá problema algum, Samantha não ligará, sei que não – o velho faz uma cara de asco ao ouvir o nome nu de um Senhor sem o seu título prefixal e Edgard, ignorando o comentário implícito do velho, prossegue: – E se você não fosse tão orgulhoso poderíamos ter muito mais do que esta caseta fedida! Não são todos que tem ou terão a sorte de algum dia ter uma Senhora tão amigável!

– Ah! As pessoas vêem, Edgard! As pessoas sabem! Aprenda a ficar no teu lugar sozinho, ou terão que lhe ensinar! Vai acabar conseguindo problemas, se não com Senhora, com algum outro Senhor, seu tolo estupido! – Gritou o velho dando um murro na mesa, fazendo o prato de sopa de batatas, quase vazio, sacudir, e começando uma crise de tosse profunda, faz Edgard se levantar e ir até ele assustado.

– Já te disse para moderar! Você não é mais jovem – disse o garoto retirando o cachimbo das mãos do velho que ainda ofereceu resistência puxando-o de volta e mesmo durante a crise de tosse, que vinha se tornando cada vez mais freqüente, ainda tentou sem muito sucesso pronunciar: “Me solta!”.

A crise piora e a tosse começa a vir acompanhada de sangue. Edgard sem saber o que fazer corre e pega seu copo com água para Tess que agora já estava ao chão, caído e tossindo profundamente. O garoto ajoelha-se e tenta entregar a água para o avô, que vertia sangue pela boca e nariz, e o velho dá um tapa no copo derrubando-o.

Desesperado, Edgard levanta assustado pensando em talvez correr e chamar Samantha para ajuda-lo, mas vê a mão de Tess estendendo-se no ar, antecedendo sua ação, e agarrando sua camisa para que esperasse. Contestado e assustado ele então senta ao lado do avô e cobre a face com as mãos enquanto as lagrimas descem ao chão, dizendo não saberem o que fazer, a espera por uma melhora.

Depois de alguns minutos, e o fim da crise de tosse, o garoto limpa o sangue do chão com um pedaço de pano velho, e decide jogar fora sua roupa manchada mais tarde.

Ao terminar de limpar, Joga o pano em um balde de madeira e senta, sentindo-se esgotado e com a cabeça baixa, na cadeira mais próxima. Enquanto o velho, sentado em sua cama, treme devagar e respira pausadamente envolto até os ombros em um cobertor encardido.

Os pensamentos lhe invadiam a mente com freqüência. Edgard sabia que seu avô não viveria muito mais e ele ainda se recusava a ter qualquer ajuda médica que Samantha pudesse patrocinar vinda da cidade. Velho tolo! – Pensa Edgard. – Vai morrer pelo orgulho e não pela doença!

– Sabe garoto – diz o velho quebrando o silêncio depois de ter recuperado um pouco do ritmo de respiração. – Quando eu era jovem, Senhor Simon me levava com ele a grande feira central com freqüência. A linhagem não era muito rica ainda, então eles lucravam mais com a compra e venda de antiguidades. Livros de todos os tipos, esses mesmo que você gosta de ler, armas de guerra, tapetes e outras frivolidades de Senhor, sabe como é. E um dia, voltando deixei por acidente cair um livro e quando chegamos o Senhor Simon deu por falta, tive que voltar correndo para procurar o livro antes que outro alguém o encontrasse e o levasse dali – o velho faz uma pequena pausa para tossir, o que leva a cara de Edgard a empalidecer um pouco, mas que é parcialmente tranqüilizada por um sinal da mão de Tess dizendo que estava tudo bem, e continua lentamente: – Procurei o livro pelo caminho que passei, pela beirada do barranco da estrada e pela centro e não o achei. Procurei por todo o resto do dia.

– Quer mais água? – pergunta o garoto levantando-se para pegar mais.

– Bem, muito tempo depois então resolvi voltar para a casa pois já era noite e não poderia procurar muito mais para que o Senhor não achasse que eu havia fugido e então mandasse Guardas atrás de mim – prossegue o velho ignorando a pergunta de Edgard. – No caminho de volta, com medo da punição que iria levar por ter perdido o tal livro e por ter passado o dia procurando e não achado, acabei me desatentando, escorreguei e cai no barranco ao lado da estrada – o velho fez outra pausa, como que para buscar as lembranças na cabeça e prosseguiu.

– Quando cheguei lá em baixo, já ao lado de Forunatu, todo machucado e levantei a cabeça para ver onde estava, do meu lado havia uma menina toda suja me olhando escondida atrás de um arvore. Vendo que eu era humano conversamos e eu descobri que ela tinha fugido pela manhã e estava ali desde então escondida sem saber para onde ir. Perguntei a ela se ela não sabia que seria achada de qualquer forma e que seria melhor voltar por conta própria. E ela disse que não queria voltar nunca para seu dono que a espancava frequentemente e a usava como escrava de seus prazeres. Então decide levá-la comigo de volta para a estrada para conversarmos melhor, e ela me acompanhou preocupada em ser vista. Chegamos lá exaustos, e pela estrada vinha um Guarda Montado que chamou nossa atenção e ao vê-lo, Harth, tentou sair correndo. Sim, ela mesmo – comenta o velho ao ver que o nome chamara atenção de Edgard.

Tess aproveita a deixa para respirar um pouco e continua: – Mas bem, acabei segurando-a para que não tentasse fugir, era inútil e só pioraria a situação, ela sempre fora muito tola a pobre coitada. Então o Guarda nos levou presos amarrados ao cavalo para a cidade e chegando no centro, o dono de Harth estava esperando por ela. Seu castigo seria terrível, pois seu dono parecia muito transtornado. Ele entregou uma quantia de moedas para o Guarda pelo serviço e saiu levando embora a menina. O Guarda então, logo após, me perguntou de onde eu tinha fugido e expliquei-lhe toda a historia. O Guarda então me disse que se ninguém aparecesse até o amanhecer ele me venderia na feira e me levou amarrado ao cavalo em direção a prisão. Mas não foi preciso esperar muito – o velho ajeitou o cobertor e prosseguiu.

– Senhor Simon chegou algum tempo depois com a carta-de-posse e me levou embora. O castigo também era certo para mim. Mas no caminho de volta, tentei convencê-lo a comprar Harth. Ele disse então que precisava realmente de alguém que cuidasse da comida e perguntou se ela seria uma boa cozinheira. Mesmo não a conhecendo respondi que sim. E no outro dia logo após meu castigo, – nesse momento Tess mostra as cicatrizes por todo o braço direito que Edgard já havia visto muitas vezes e prossegue – fomos a feira e por sorte ele também foi e acabamos por nos encontrar. Indiquei ao Senhor Simon quem era o Senhor da garota, e ele foi lá e a comprou por pouco pois ela estava toda machucada. Foi assim que conheci a sua avó garoto – disse Tess tornando a respirar pausadamente.

Edgard olhava para o avô sem saber o porque de tudo aquilo e o que responder, mas o próprio velho continuou.

– A melhor parte da minha vida, percebe. Não há por que brigar de mais com ela. Deixa ela te levar, e talvez chegue a algum bom lugar, pois se atracar com ela nenhum proveito vai te trazer. Mas veja, agora no fim… O que eu tenho? Minha vida já se passou. Meu tempo se passou, estou velho. A vida não me reserva mais nada de bom, e depois de todos os meus desprazeres, não tenho mais por que me preocupar tanto. Todos tem seu tempo. Você vai aprender…

O garoto fica horrorizado com a frieza do avô em falar de forma tão direta sobre o assunto. Ele sabia que vida de seu avô não fora excepcional, mas relativamente boa para um humano se comparado a de outras pessoas.

Tess chegou em uma idade que poucos conseguiriam chegar. E assistiu toda sua família, com exceção do garoto, morrer sem que ele pudesse fazer nada. Não que outras pessoas pudessem fazer muito mais, mas o velho era o tipo de pessoa conformada que achava esperança um desperdício de tempo que poderia ser menos mal usado em outra coisa. E Edgard sabia que Tess possuía personalidade forte e cravejada, e que discutir com o velho era completamente inviável. Não havia como mudar sua opinião e no fundo ele sabia que seu avô não queria viver muito mais. Talvez tudo aquilo tenha sido uma despedida, ou uma tentativa de confortar o neto.

Um tempo se passou sem que ninguém dissesse ou fizesse nada e depois de conversar consigo mesmo, Edgard percebeu que não havia o que falar em voz alta. Não havia o que discutir. Seu avô não queria mais continuar, e ele sabia que não adiantaria nunca discutir com o velho. Então levantou-se mortificado e entregou o cachimbo ao velho Tess, depois virou-se sem olhar seu avô, caminhou, e deitou em sua cama, chorando em silêncio sem derramar lágrimas.”

Ouviu-se de leve o barulho da grande janela sendo aberta e Edgard foi retirado de seu sonho com um leve beijo em seu rosto. Ser acordado todo dia daquela forma era algo com que sempre devaneou durante muito tempo. Deitado em bons lençóis, em uma cama confortável, e ser acordado por sua amada.

Ele esperava um dia comum, mais de certa forma ocupado, indo ao centro vender e comprar alguns artefatos, passar em alguns bares, afim de encontrar mercadorias mais “seletas” e voltar para casa antes do almoço para ler um pouco. Durante a tarde ajudaria com algumas tarefas de que sentia falta como limpar algumas partes da casa, remover o pó da tapeçaria, e deixaria os trabalhos externos para Aetsen. A noite poderia descansar e vislumbrar sua facilidade com os negócios, os lucros do dia. Não que eles precisassem pois a herança da linhagem de Samantha era mais que suficiente, mas era um serviço do qual gostava muito. E antes de dormir poderia apreciar a companhia de sua amada que o encantava tanto.

– Se dormir mais que o sol, vai acabar sendo invejado por ele – disse uma suave voz que o homem, antes menino, apreciava ouvir. A voz que Edgard desejava ouvir para sempre.

– Já sou invejado pelo sol. Ele só te toca pela manhã, já eu posso toca-la por toda a noite – disse abrindo os olhos a tempo de ver sua amada, Samantha, ajoelhada ao lado dele na cama, esboçar um belo sorriso em resposta a seu elogio demasiado poético.

A mulher com quem queria passar o resto da vida. Rosto de traços finos, olhos verdes claros, longos cabelos loiros que lhe alcançavam os joelhos, um corpo delineado perfeito vestido em uma longa camisola que brilhava dourada com os raios de luz que invadiam o quarto por uma grande janela.

Samantha se inclina sobre Edgard passando a perna por cima da dele o deixando pressionado contra a cama e lhe beija os lábios. Pode sentir toda o corpo dela sobre o seu. Cada detalhe, os seios fartos por baixo da camisola; a maciez da pele; o cheiro de seus cabelos e o amor em seu beijo. Seu encanto era quase sobrenatural, e não deixava de ser.

– Vou preparar a comida, dorminhoco – diz ela saindo da cama se despedindo com mais um beijo nas bochechas, calçando suas sapatilhas acolchoadas e saindo do quarto pela porta.

Edgard se levanta, veste sua camisa de tecido branco e anda em direção a grande janela. Sente o vento frio da manhã entrar no quarto e deita o olhar sobre a caseta nos fundos recostada na grande floresta, que seus olhos mal conseguiam acompanhar. Ele se lembra de sua vida lá, do passado, de seu avô. Não tinha aquele sonho a muito tempo, um sonho recheado de lembranças e culpa. Muitas vezes Edgard imaginava se o sonho havia gerado aquelas lembranças, ou o contrário.

De qualquer forma, o velho havia morrido anos atrás, doente de fumo. Edgard havia sido acordado no meio da noite por um forte ataque de tosse de Tess, e ele já tão velho e doente que mal conseguia falar, sempre ofegante, acabou morrendo fraco pela perda de sangue de forma agonizante. Talvez seu corpo tenha resolvido dar um fim ao sofrimento. Quem vai saber, pensa.

Naquele passado, sentiu-se impotente em relação ao avô, pois nada podia fazer se não observar a agonia e abraçá-lo enquanto Tess vomitava sangue.

Tentou afastar os pensamentos, a culpa e as lembranças triste sobre ele da cabeça meditando sobre o seu dia, e o que teria que fazer. Depois algumas minutos, Samantha o chama à porta para ir comer. Sua vida havia de fato melhorado muito, e se o velho estivesse vivo talvez não tivesse ficado tão doente. Se culpava por não ter forçado um tratamento ao velho Tess. Dane-se sua loucura e orgulho!, pensava, sabendo que ele certamente recusaria qualquer tratamento como sempre recusou.

– Ed, vamos, vai acabar esfriando – disse ela ainda o esperando encostada na abertura da porta.

– Estava pensando sobre os livros, talvez devêssemos vender alguns da coleção – diz ele apenas para dizer algo, virando-se e indo em direção a porta. – Já lemos a maioria.

– Você é realmente ganancioso – fala ela beijando-o mais uma vez e saindo ambos em direção ao andar de baixo para comer.

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Os imundos

Posted by manjivitor em fevereiro 24, 2009

Acordei tristemente um dia.
Vi um mundo doente com gente doentia.
A salvação batia a porta,
E era tão fácil atende-la
Mas o vendedor dizia,
Sua vida é vazia
E a terra há de come-la.

Existem cegos no mundo.
Nascidos mortos e vivendo moribundos.
Dando significados a vida,
Vivendo de forma evolutiva.
De si mesmos oriundos,
Vivendo para viver em outros mundos.
Dando à venda força ativa.

Velhos vultos vagando vendados no velho mundo.
Vidas vazias vendendo versões de vermes verdugos.

Acordei tristemente um dia.
Vi um mundo doente com gente doentia.
Vi cenas, vi praça, vi vontade e desgraça.
Vi vermes, vi cegos, vi doentes e traças.

Vi Anjos e vi sangue.
Vi sal e vi diamante.
Vi vergonha e vi defuntos.
E vi os imundos que habitam o mundo.

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Matando idéias

Posted by manjivitor em fevereiro 24, 2009

Mais um trabalho bem feito, seja lá o que isso quer dizer. Retiro o Carlton da carteira, ascendo, trago, e penso comigo mesmo, tenho que parar de fumar.

O defunto me encara, como quem encara uma vitrine sem saber de fato o que tem dentro. Confuso? Não tanto quanto a cabeça desse cara, espalhada por todo o carpete. O cheiro do sangue estaria alcançando minhas narinas agora, mas o cigarro impede. Vinte anos na força te ensinam coisas.

O reforço estará chegando daqui a pouco. Gerundismo? Devo estar realmente um caco. Não durmo a dias. Como sempre. Essa monotonia tira a graça do sono. Quando chegarem, será só mais uma vez que direi “defesa, ele partiu para cima de mim”.

Pobre homem. Queria brincar de bandido, mas não leu as regras do jogo. Achou que poderia se livrar de mim assim? Que depois de aceitar a grana eu seria a puta do papai? Não nessa cidade. Não na minha cidade.

A fumaça percorre todo o escuro quarto do hotel. O abajur quebrou quando eu o arremessei nele. As quatro balas na cabeça vieram depois para dizer, não haverá amanhã para você.

Matei algumas idéias. E quem não matou? Podem me culpar? O cara era um qualquer e sou quase imparcial ao dizer que nada sairia dele. Traficantes, eu os desprezo. Trazendo seus produtos e sub-produtos, suas sub-coisas, suas sub-mentes, suas sub-idéias. Como quem traz uma solução genial para um problema complexo de matemática. Queime-o.

Ouço as sirenes ao longe. Sempre tarde. Sempre fazendo alarde.

Meu cigarro chega ao final, arremesso-o no cinzeiro. Olho a carteira. Vazia. Que pena, trocaria três ou quatro traficantes por mais um. Afinal, mesmo que você bote fogo em um drogado, ele ainda vai ter gosto de merda no final.

Os policiais saem de seus carros lá em baixo. Hora de ir.

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