Matando Idéias

Betas, descartes e testes.

AVISO

Posted by manjivitor em junho 10, 2009

Blog abandonado por um tempo. Resolvi guardar meu lixo na minha lixeira, por enquanto, até lá, desculpe-nos pelo inconviniente.

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Cinema

Posted by manjivitor em maio 2, 2009

O garoto com espinhas apoiava-se no balcão sem entusiasmo. Do outro lado, pessoas andavam em direção a saída. Crianças, velhos e adultos. Mas os que realmente lhe incomodavam eram os adolescentes. Não por serem ingênuos, egoísta e efusivos, mas por estarem acompanhados de suas namoradas. Odiava a todos eles e em sua mente já ouvia novamente a voz de sua mãe: “Porque você não pode ser como os outros garotos? Talvez devesse arrumar uma namorada, bebezão da mamãe!”
– Não sou seu bebezão! – Grita o balconista.
Algumas pessoas que caminhavam lhe olham. Seu rosto fica rubro e algumas adolescentes de allstar que passavam apontam e riem dele. Vira-se para a maquina de pipoca com os punhos cerrados e evitando olhar para elas. Seu ódio fervilha misturado com raiva, e em sua mente palavras de guerra surgem: “Odeio todos vocês! Vocês que riram de mim! Vou matar todos vocês! E os que ficarem vivos se ajoelharam perante a mim! Temam o Senhor do Escuro! Trarei uma era de terror e chamas sobre toda a Terra Média!”
– Duas pipocas médias, por favor – pede um homem.
– É… Só um instante – diz ele murchando por dentro.

A metros dali um casal que caminhava para a saída se assusta com o grito do menino estranho de testa oleosa e camisa do Darth Vader, que vendia pipocas.
– É cada um – Diz o homem gordinho de calça jeans e camisa social azul clara, onde se viam grandes manchas de suor abaixo dos braços. – Só tem maluco nesse shopping, já te disse.
– Ah, você que se irrita com tudo – responde sua mulher de longos cabelos e saia. – Talvez devesse relaxar um pouco.
– Já estou relaxado. Foi um ótimo filme.
– É…
– O que foi? Não gostou dele?
– Você sabe que eu não sou muito fã de musicais, amor.
– Mas não foi um musical!
– Claro que foi. Pessoas cantavam o tempo inteiro e…
– Porque você está querendo brigar comigo?
– O que? – Pergunta ela parando de andar.
– Eu sei que você quer brigar comigo. Quer me irritar. Sei disso. Mas não vai conseguir.
Ela abaixa a cabeça e apóia a mão na testa sem dizer nada.
– Agora vai me ignorar? Tudo bem. Faça como quiser.
– Por que você está gritando? Estamos dentro de um sho…
– Porra, Márcia! Você tá assim comigo desde aquele dia.
– Esse não é o local para…
– Nunca é!
– Calma, amor. Vamos para o carro, vamos.
– Já disse que não quero falar com você!
– Não, você não…
Ele esfrega mão na testa freneticamente.
– disse nada disso – completa ela.
– Tudo bem. Quer brigar? Vamos brigar. Bem aqui no meio do shopping! Para todo mundo ouvir – fala ele alto, quase gritando.
– Amor – chama ela baixinho e disfarçadamente. – Vamos para o carro, por favor.
– Márcia! Márcia! Você me… Márcia! Puta que pariu!
– Calma, vamos para o…
– Márcia! Você me tira do… Márcia!
– Calma, Fábio, por favor. Sua pressão vai…
– Ai! Minha pressão, Márcia!

Um homem desaba no chão. Algumas pessoas param para olhar enquanto outras correm para chamar um segurança e a mulher ao seu lado respira, como que aliviada. Jonas foca melhor a câmera de segurança, do interior de sua salinha, e vê o menino que vende pipocas com as mãos levantadas no ar, como que comemorando algo.
– É cada maluco – Pensa ele e tira o radio de cima da mesa. O liga e faz o chamado: – Sujeito gordo desmaiou na porta do cinema.
Solta o botão e espera a resposta que vem após alguns segundos.
– Ta certo, tem um brigadista indo – respondeu a voz no walkietalkie.
Trabalho feito. Jonas imaginava, enquanto rodava em sua cadeira giratória, que aquele seria o ponto alto de seu dia. Mas como um tiro um pesamento lhe atinge a cabeça. Sua mente considerou inúmeras possibilidades e chegou a conclusão de que provavelmente não haveria problema. “Hehehe”, pensou sua consciência. Correu para a mesa do outro lado da sala, abriu uma gaveta e em seguida sua carteira, que havia estado lá dentro. De lá, tirou um pequeno saquinho recheado do que parecia mato ruminado e um pedacinho de papel.
Dechavou. Enrolou. Lambeu. Pilou. Acendeu e viajou.

Brigadista não era o que ele queria ser. Queria ser bombeiro. Como acabara naquela profissão? Queria salvar pessoas não ajudar gordos desmaiados em shoppings. Queria ser grande, um herói. Seu dia havia sido um lixo. Acordara atrasado, derrubara seu café da manhã e perdera o ônibus duas vezes. Agora era noite, mas passara quase que todo seu dia sentado em uma sala quase vazia, contando com apenas uma TV, rodeado do que ele chamaria de “Muitos Machos” e quase no final de seu turno, um infeliz jogo do palitinho o levara a ter que socorrer o maldito gordo. Nem o conhecia, mas sabia que o odiava. Deve ter passado mal de tanto comer doces. Encheu o cu de jujuba e agora ta peidando açúcar.
Virou a esquina do corredor e viu uma roda de pessoas. Imaginou que no centro estaria a proeminente baleia. Muita conversa. Pessoas discutiam métodos de tratamento para a já diagnosticado, pelo consenso geral dos ali presente, doença cardiovascular. Algumas crianças rodavam em volta da grande roda, como brincando de ciranda, enquanto um garoto estranho de testa sebosa agitava as mãos no ar e gritava: “Fogo, Horror e perdição! Hahaha!”
Adentrou o circulo e viu o gordo no chão. Sua mulher ao lado tinha cara de quem passou o dia revezando entre massagens e banhos de banheira com rosas.
– Espaço, por favor – pediu ele da maneira menos enfática possível esperando que as pessoas decidissem desobedece-lo e resolvessem pular todos juntos sobre o gordo.
– O que ele tem, doutor? – Perguntou uma velha que viera do outro lado do shopping atraída pelo cheiro de desgraça alheia.
– Não sou médico – respondeu.
– Então o que faz aqui? – Perguntou ela.
“O que faz aqui”. As palavras ressoavam em sua mente. O que eu faço aqui? Repetia para si mesmo. Deixou-se perder em devaneios. Saiu da roda. Caminhou até a parede. Sentou e ascendeu um cigarro. “O que eu faço aqui?”

“Ronaldo”. Pensava Cássio, o segurança enquanto assistia a um jogo de futebol na telona de LCD, que jamais teria, através da vitrine das Casas Bahia. Ao longe ouvia pessoas correndo. Sua mente se alertou como um suricate na savana. As palavras já vinham em sua mente: “Não pode correr por aqui”. Poderia dar uma bronca em mais adolescentes! Uh! Era um pensamento quase orgásmico.
– Moço! Moço! Ajuda!
Droga. Pensou ele virando-se.
– Tem uma moça passando mal na porta do cinema! – Falou umas das mulheres que havia chegado.
– Não foi uma moça! Foi um gordo – dizia outra.
Não sabia em quem confiar. Não sabia mesmo se deveria confiar em alguém. Seu instinto era um predador, e os domínios daquele grande aglomerado de lojas eram a sua selva. Iria atrás do seu moça-gordo.
– Ok, me levem lá – disse ele passivamente.
Correram de volta em um pequeno trote. A cena não era das mais agradáveis. Velhas gritavam por todos os lados. Via uma roda de pessoas ao redor do que parecia ser um sujeito rechonchudo e suado. Ao lado, crianças dançavam seu ballet em torno do circulo enquanto um garoto baixinho e cheio de espinhas agitava os braços e gritava: “Morte! Morte a todos! Sintam a ira de Khan!” e um sujeitos vestido de brigadista apoiava-se na parede e fumava um cigarro. Não daria conta de tudo. Pegou o walkietalkie e apertou seu botão.
– Jonas – chamou ele. – Jonas? Ta aí?
Nenhuma resposta. Repetiu.
– Jonas? Porra, Jonas! Ta aí?
E uma voz soou do walkietalkie cantarolando.
– Don’t worry, about nothing. Cuz every little thing, is gonna be alright! Tchuruchuchu tchururu!
Aquele não era um bom dia. Definitivamente.

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Danilo

Posted by manjivitor em abril 22, 2009

Danilo era uma pessoa normal. Viveu boa parte da vida em uma cidade de interior onde não tinha amigos. Aos 11, foi morar com os pais em uma cidade média. Teve dificuldades de se adaptar aos novos amigos que não tinha. Seu pai não falava muito, e todas as tentativas de Danilo de conversa acabavam o fazendo levar um cerveja para ele. Sua mãe não falava muito. Muda desde a infância após ter sido estuprada por um carteiro.

Mas o garoto crescera, agora um adolescente. Espinhas, fimose e muitas horas gastas na ducha com revistas que claramente diziam na capa serem “Proibidas para Danilo”. Conquistara um amigo, amizade essa que durou cerca de 4 meses quando o menino com leve paralisia mental, mal hálito, cara de Síndrome de Down e que usava óculos lhe chamou de “Babacão” e foi sentar no outro lado do refeitório. Não conseguia uma namorada. Não conseguia sequer chegar perto de uma menina. E as vezes sentia que fazia algo de errado quando pensava em alguma delas.

Mas o adolescente crescera. Após terminar o ensino-médio, fez 1 ano de cursinho preparatório para o vestibular. Não passou. Arranjou um pequeno emprego e pagou o curso novamente. Uma reprovação não iria abala-lo jamais. Perseverou e passou na segunda tentativa.

Faculdade. Via toda uma gama de experiencias novas pipocar diante de seus olhos. Como muitos de sua época, acreditava que a faculdade seria um antro de conhecimento, recheada das mais belas descobertas e das melhores companhias. Acreditava que viveria pelo conhecimento, e que o conhecimento seria sua arma para enfrentar o mundo. Isso até perceber que metade das provas que fazia eram sobre conteúdos que seus professores não deram aula. Que seus professores eram seres maus, quase demoníacos que exigiam o que nenhum ser humano sem quantidade enormes de cafeína pudesse agüentar. Danilo chegou a exaustão. Mas havia terminado seu curso. Sentia-se dez anos mais velho e não tinha completa certeza se havia se livrado do vício em café. Mas não era hora para pensar aquilo.

O mundo. “Cuidado pois estou indo ai, e você está na minha mão” – pensava. Mas passara quase um ano sem emprego, sofrendo ameaças constantes de seus pais de o expulsar de casa. Decidiu então mudar de cidade. Sabia que lá no fundo, o que lhe fazia mais mal era aquela cidade. Mudou-se.

Cidade nova. Novos ares. Novas pessoas. Nada de parentes. Via no horizonte uma era de iluminação para sua vida. Conseguira um emprego como professor em uma escola mediana no centro da cidade. Daria aula para o ensino-médio, diziam. Mas no fundo ele não se importava para quem daria aula. Só queria da-la. Queria mudar o mundo. Ser o melhor dos professores. Ser o que nenhum professor havia sido para ele. Iria criar pensadores, seres inteligentes, com cabeças próprias prontos para enfrentar o mundo. Faria aulas dinâmicas, concursos, daria seu sangue e tudo que fosse necessário para atrair atenção daquelas sementes de um futuro melhor.

E o tempo passou. Acreditou que muitas vezes havia conseguido. Mas não tinha certeza sobre nenhuma. Os anos iam passando cada vez mais rápido, como um trem que deixava a vida. Sua animação murchara. Seu entusiasmo morrera. Seu sonho esfarelava mais a cada dia. Quantos anos já havia vivido, se perguntava. 40 anos? É tempo de mais para não ter feito nada. Mas já era tarde agora. Suas aulas já não eram as mesmas, apenas enchia o quadro com o que podia e aguardava sem ansiedade o sinal da próxima aula. Só queria ficar ali, sentado. Apático.

– Professor.

Ouvira de longe uma voz feminina lhe chamando dentro da sala de aula e lhe tirando vagamente de seus pensamentos sobre a vida. Uma estudante qualquer, pensava. Sua mente automaticamente a ignorou.

– Professor – repetiu ela. – Como eu calculo a tensão dessa mola da questão 1?

Insistente, pensou ele em seu topor. Ele levanta a cabeça que estava apoiada na mão e a observa. Que calça era aquela que a menina usava? Chegava até o umbigo. Essa moda não acabou a uns 20 anos atrás?

– Professor o senh…

E aquele menino sentado a frente dela. Que cabelo era aquele. Roxo? Ele tem brincos na cara. E sua atenção volta para a menina. Sua boca meche, mas sua cabeça ignora os sons. Essa calça é…

– … a mola da questão 1?

– Tão alta – fala ele sem querer.

– O que? – Pergunta a menina.

– É… Tensão alta.

– Mas qual é a…

O sinal toca. É como um orgasmo. O último sinal. O tão sagrado último sinal.

Ele sai, abre seu armário, pega sua coisas e se arrasta lentamente até o carro ignorando os comprimentos de outros membros docentes.

O que faria agora? Não tinha namorada. Não tinha amigos. Iria para casa.

Dirige calmamente, ignorando os chingamentos. Passa por 30 outdoors diferentes e não sente vontade de comprar nada oferecido, inclusive a incrível sandália da Xuxa ou assinar a Sky Hd. Só queria ir para casa.

E chega. Abre a porta e anda até a cozinha. Fedia mofo. Ele arremessa a chave do carro em cima da mesa. Errou. Abre a geladeira e não vê nada nutritivo. Pega uma cerveja e caminha para o sofá e se senta.

Liga e não há nada de interessante passando. Mas não que ele se importasse. Só queria se sentir acompanhado. Abre a cerveja e a olha. Bolhas. Lembrara-se de um conto de Woody Allen que lera anos antes. Se o universo estava mesmo em expansão, será que um dia ele deixaria de encontrar suas roupas? Afinal… O universo. Que coisa estranha, pensa ele. Tão grande e ainda ficando maior. É como uma distância dentro de outra dentro de mais uma, envolvida por uma outra distância que não parecia existir como comprimento, dentro de outras distância mais estranhas ainda. Ah! O universo. Uma talvez-esfera dentro de um talvez-universo com mais talvez-dimensões talvez dentro de outro talvez-universo. E ele ali. Bebendo uma talvez-cerveja não muito boa. Vendo um talvez-programa bom. Tendo sua talvez-vida. Se sentia doente. Melhor não dar aula amanhã.

Talvez fosse melhor.

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Pause Break

Posted by manjivitor em abril 12, 2009

Às vezes, viver realmente me cansa. É como estar em um video-game sem direito a pausa e, das profundezas da minha alma e de todo meu coração, isso me enche o saco. Não se engane, gosto de jogar, mas de quando em vez this really piss me off.

Preciso de férias, Gandalf!

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Os três

Posted by manjivitor em março 8, 2009

Ela olha em volta. Os azulejos brancos do banheiro parecem perder seus contornos, depois voltam ao normal quando ela desvia sua atenção deles. Olha o tapete, antes felpudo, agora recheados de pequenas cobras que oscilam como que mergulhadas em águas com correnteza.

Olha no espelho. Mas não vê a si mesma. Sente-se expandir para fora de si, como se não coubesse dentro de seu próprio corpo.

Um vento percorre o banheiro. Mas a janela está fechada. Resolve sair.

– Boa noite – Diz o sujeito de cartola sentado na cama, apoiando suas mãos sobre uma bengala.

– Boa noite. Quem é você? – Pergunta ela.

– Não fará diferença.

– É, você provavelmente está certo. – Ela caminha pelo quarto, sentindo o carpete acariciar seus pés, enquanto as sombras dançam a sua volta e ela se senta na cama ao lado do sujeito.

O observa por um tempo.

– Eu acho que te amo. – Diz ela.

– Eu sei que me ama. Também amo você.

– Mas eu não te conheço, como posso te amar?

– Você me conhece. Só nunca me viu com um rosto.

– Tenho vontade de beija-lo, tenho vontade de bebe-lo, tenho vontade de transar com você.

– Também tenho. – Diz o homem de cartola que parece se distanciar.

Ela aproxima sua boca da dele e o beija. Como se um tiro atravessasse sua mente, ela tem um orgasmo que parece durar anos.

Quando percebe, ele não está mais lá. Mas ela sente vontade dele. Levanta, sente o mundo levantando também, e espera ele se acalmar. Anda até o banheiro.

Não o vê. Lá, apenas a banheira onde pingüins completamente brancos brincam, os azulejos alterando seus formatos em coro e a seringa no chão, onde ainda resta um liquido marrom com cheiro forte. Ela pode sentir o cheiro a metros de distância. Um cheiro doce e salgado.

Se vira e volta para o quarto. Encostado na parede existe um homem bem vestido. Roupa social.

– Olá? – Pergunta ela.

– Bom dia. – Diz a voz calma do homem. Tão calma que a irrita um pouco.

– Quem é você?

– Posso lhe ajudar a descobrir.

– Não quero que me ajude, quero que me fale.

– Você parece irritada. Isso não faz bem para você. Acalme-se. – Ele anda em sua direção.

– Não quero me acalmar.

Nas paredes do quarto, sombras começam a dançar em roda, como se no centro do quarto houvesse uma fogueira.

– Vá embora. – Diz ela deitando-se na cama e olhando para o teto espelhado. Sem reflexo dela mesma.

– Talvez você devesse procurar ajuda.

– Não preciso de ajuda.

– Acho que precisa. Isso não pode acabar…

– Vá embora! – Ela grita o interrompendo.

Silêncio, mas tudo ainda parece barulhento, como se as cores fossem sons ou como se houvesse uma orquestra de música estranha escondida no fundo da sua mente, esperando para sair sempre que pudesse.

Os pingüins parecem ter saído da banheira, e dançam pelo quarto tentando molhar uns aos outros com os baldes que carregam.

Os lençóis viram água e ela bóia sobre eles enquanto se lembra do cavalheiro de cartola. Uma ponta de tesão lhe desce a espinha. Ela desliza as mãos, desde o pescoço, passando pelos seios até chegar a virilha. Acaricia a si mesma, e fecha os olhos sentindo-se flutuar.

– Olá. – Soa uma voz perto dela.

A garota abre os olhos. Ao seu lado na cama, um homem vestido em trapos a observa.

– Quem diabos é você? – Pergunta ela.

– Talvez você devesse parar de perguntar coisas que não precisa saber, e concentrar-se em fazer algo para ela.

– Ela quem?

– Ela.

– O que?

– Levante-se.

Como que obedecendo ao homem, seu corpo se senta na cama.

– Agora vá.

Ela luta contra o impulso de se levantar. Sacode as mãos na direção do homem querendo lhe arranhar, rasgar, cortar, apertar.

O homem some entre seus dedos. E ela cai da cama.

Olha para a porta do banheiro. Lá está ele. Ela corre na direção oposta, e se vê na sacada do quarto. Lá em baixo, luzes correm por linhas pretas e dragões dançam por trás dos prédios.

Sua camisola está rasgada. É cor de pérola.

– Não deveria fugir. Deveria desejar fazer o que precisa ser feito.

– Vá embora!

Ela rasteja até bater no gradeado de arabescos da sacada.

– Ame.

– Vá embora!

Ela se levanta. Olha lá para baixo. Está tudo tão suave. Talvez devesse pular.

– Não faça isso.

– Vá embora! – Diz ela subindo na grade.

– Não faça isso.

– Vá embora!

Os pingüins passam correndo por debaixo da perna do homem e começam a dançar enlouquecidamente pela sacada, pulando todos, um atrás do outro, após alguns segundos.

Ela os olha cair, e lá embaixo, mergulham naquele mar preto recheado de peixes vermelhos e amarelos.

Deixa seu corpo cair. E após um tempo que parece uma insanidade toca o chão.

Sua cabeça dói. Olha em volta, está em um banheiro, deitada no chão próxima a privada.

Há uma seringa no chão.

– Como sempre. – Diz para si mesmo.

Sua boca está seca. Levanta-se e se olha no espelho apoiando os braços na pia. Sua cara está um desastre. Olheiras profundas.

Abre a torneira, joga água na cara e depois bebe um grande gole.

Ouve passos. Alguém abre a porta do quarto.

Se vira, e vê uma garotinha parada a olhando.

– Mamãe? Você está bem?

– Claro filha. Vá lá brincar no seu quarto, mamãe vai tomar banho.

– Ok. – Diz a menina olhando para a seringa no chão, depois sai do quarto.

Ela espera a filha sair, como que para dizer “não é minha”, e pega a seringa do chão e joga na lixeira.

Anda até o quarto e se deita na cama.

Na criado mudo, um cartão. Ela o pega e o lê. Há apenas um numero de um telefone no verso, enquanto na frente, uma pequena ilustração de uma cartola.

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O Maestro

Posted by manjivitor em março 4, 2009

Sua pele é de um tom seco e sedoso.
Seus seios se movimentam enquanto respira ofegante.
Ela me olha fixamente. Olhos bem abertos.
Sua boca está entre-aberta, mas não pronuncia nenhuma palavra.
Está agitada por dentro, mas nenhum de seus membros se move.
Sem suor. E espero que fique assim.
Está nua. Olhando fixamente para mim.
– Você sabe o que é o amor? – Pergunto.
Não há resposta. Tudo bem, prefiro assim.
O ambiente não é dos mais reconfortantes. Mas é o suficiente para nós.
O teto é escuro. O chão também. Paredes cinza, com várias ferramentas penduradas.
Ela está ofegante. Olhando para mim.
Será que está com medo? Será sua primeira vez.
Só há uma mesa no meio da sala. Vai servir. Uma mesa em metal prateado.
Sinto vontade de beber umas doses de vodka. Sentir o calor no peito. Mas não posso perder esse momento em troca de um topor etílico.
– So close, no matter how far. – Eu canto baixinho.
Será sua primeira vez. Tudo tem quer ser perfeito.
Eu a olho deitada na mesa. Seu corpo nu. Pele quente sobre metal frio. Corpo perfeito.
Como será a orquestra dessa noite? Me pergunto.
Será que sou um grande maestro? Bom o suficiente para ela?
Será que seu corpo tocará a música que quero ouvir?
O momento se aproxima. E eu me aproximo dela.
Seus olhos vidrados em mim.
Um pequeno banco ao lado da mesa apóia minhas coisas.
Toco sua barriga com meu dedo indicador.
Ela recua.
Rápido de mais? Me pergunto.
Passo a mão em seus cabelos. Loiro bonito.
Ela começa a respirar mais ofegante. Está na hora.
Observo seu corpo nu. Mas não me excita. Só quero ouvir a música.
Abro minha bolsa sobre a cadeira. Tantas coisas. Mas gosto dessa.
Pego um bisturi de metal reluzente. Frio.
Ela me olha, parece sentir medo, mas não consigo senti-lo nela.
Boa garota. Será que irá gritar?
Apoio o bisturi, deixando a lamina para fora, assim não tocaria na mesa.
Ando em torno dela, apertando mais suas mãos, pernas e abdomem, mais fortes.
Ah! A música, já posso imaginar as notas.
Vejo seus olhos encherem de lágrimas, mas nenhuma cai. Acho aquilo tão bonito. Uma obra de arte.
Viva, uma obra viva olhando para mim. Seu corpo é uma escultura, uma escultura recheada de notas musicais.
Não vou tampar sua boca. Ela não vai gritar, sei disso. Espero isso.
Volto ao bisturi. Pego-o.
Olho a lâmina. Tão bonita. Mas é só uma ferramenta.
Me aproximo do rosto da garota, ela o vira. Achou que eu fosse beija-la? Haha, tão inocente nesse aspecto, tão bonita.
O barulho do mundo some lá fora da sala. Agora, tudo ali era meu templo.
Coloco a mão abaixo de seu seios e a seguro. Com a mão direita aproximo a lâmina de seu pescoço
Ouço a música bem longe. Vem dela.
Faço um pequeno corte em seu pescoço. Superficial.
Uma gota escorre de seu olho. Tão linda. Olhos lindos.
O sangue escorre lentamente. Uma bela nota. Preciso de mais.
Faço uma incisão profunda entre seus seios. Ela geme. O sangue escorre. Bastante sangue.
Lindo, belas notas. Bela música! Tão boa quanto esperei! Ouço a harmonia do arranjo que escorre ao lado de seus belos seios! Magnifico arranjo!
Corto seu braço agora em um movimento rápido! Ha! Lindo! O crescendo! Corto sua perna, ela geme! Haha, que música maravilhosa!
Faça uma profunda incisão no baixo torax. Deixando as costelas expostas. Magnifico som. Mais belo e afinado que mil harpas de anjos. Uma verdadeira orquestra flui de seus vazos. Perfeita a música. Daria mil vidas para poder ouvi-la para sempre!
Ela chora. Se engasga sozinha com o choro.
Linda! Linda! A Deusa!
Tomo cuidado para não tocar em seu sangue. Não quero estragar o concerto.
Fecho os olhos e ouço a música com atenção. É perfeita! Com a mão, agito o bisturi como um maestro.
E vai chegando ao fim. Só ouço choro agora. Ah… Me sinto otimo. Dizem que a música tem o poder de limpar a alma, e como tem, penso!
Abro os olhos. Lá está ela, sangrando na mesa. Não tanto quanto antes.
– Você é a melhor obra. – Digo. – Você é perfeita. A obra perfeita. Eu te amo.
– Por… – Ela cospe sangue.
Ela vai falar? Tudo bem, ainda estamos no intervalo.
– Me… Deixe – Mais sangue. – Ir… Por…
– Deixar você ir? – Pergunto. – Não. Não se sai no meio do concerto. Só estamos no primeiro ato.
Ela me olha com pavor. Maravilhosa em sua perfeição.
Olho o bisturi. Hora de começar. Me preparo como maestro, e sigo por toda a noite fazendo minha música.

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Estação

Posted by manjivitor em março 2, 2009

Silêncio. O garoto observa. A estação está quase vazia. Só há uma pessoa sentada na ultima cadeira de espera.
Ele se aproxima tentando não fazer barulho, mas andando calmamente.
É uma garota. Por volta de seus dezesseis anos. Resolve sentar ao seu lado. Não sabe qual a cor do cabelo dela. Nem consegue ver sua face. Mas sabe que não é muito bonita, mas ainda sim atraente do seu jeito peculiar.
– Bom dia. – Ele fala.
Ela olha tímida.
– Bom dia. – Responde.
O silêncio cai por alguns segundos.
– Dia ensolarada, não? – Pergunta o garoto.
– Está chovendo e nublado. – Responde ela, fria.
– Jura, parece ensolarado.
– Não está ensolarado.
Silêncio novamente.
– Vai para onde? – Pergunta ele.
– Qualquer lugar longe.
– Longe da onde?
– De um cara.
– Namorado?
– Menos que isso.
– Amigo?
– Menos que isso.
– Conhecido?
– Menos que isso.
– Então o que?
– Meu único amor. A única pessoa que já amei.
– Hum, entendo.
Ela fica em silêncio novamente.
– Você o odeia?
– De certa forma.
– Por que?
– Por ele ser perfeito.
– E isso é ruim?
– É, quando a perfeição inclui não te amar.
– Estranho.
– Sim…
– Pretende voltar algum dia?
– Espero que não.
– E ele?
– O que tem ele?
– Não se importa com o que ele vai sentir?
– Ele não me ama.
– Talvez ame.
– Não ama.
– Talvez ame, mas não possa.
– Se não pode, não precisa.
– Precisa, mas não deve.
– Por que?
– Por que tem medo de te fazer sofrer.
O silêncio cai novamente.
– Ainda me ama? – Pergunta ela.
– Sempre te amei.
– Perguntei se ainda ama.
– Não posso amar.
– Odeio você.
– Me preocupo com você.
– Não quero sua preocupação, quero seu amor.
– Não vai tê-lo.
Ela chora.
– Por que faz isso comigo?
– Isso o que?
– Me fazer apaixonar por você, mesmo quando me afasta com medo de me fazer amar mais.
– Desculpa. – Diz ele, e se levanta.
– Não se vá…
– E você?
– Eu me vou.
– Não daria no mesmo?
– Não para mim.
– Certeza?
– Espere o trem comigo.
– Claro. – Ele se senta.
O silêncio cai.
– Obrigada por ter vindo.
– Obrigado por ter esperado.
– Eu te amo.
– Eu não.

O trem chega. Ela entra. Ele se levanta e vai embora. Não queria vê-la partindo. De longe ouve o trem se afastar. Agora ela poderia ser feliz. Ele não. Volta para casa. Olha o dia chuvoso pela janela, sobe no parapeito e se deixa levar pelo vento.

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Canto de viagem

Posted by manjivitor em fevereiro 27, 2009

Perdido e achado.
Esqueça o passado.
Caídos do rio, sem ficarem molhados.

Perdido e achado.
Perdido e achado.
O que já morreu, deve ficar enterrado.

Banidos, talvez.
Do rio para sempre.
Os irmãos, diferentes.
Seguem em frente.

O Brando, pacífico.
Aceitou seu passado.
O Guerreiro, raivoso.
Queria voltar.

Ele queria voltar.

Perdido e achado.
Esqueça o passado.
Caídos do rio, sem ficarem molhados.

Perdido e achado.
Perdido e achado.
O que já morreu, deve ficar enterrado.

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Projeto Um – Capítulo Segundo

Posted by manjivitor em fevereiro 26, 2009

O sol do final da tarde invade a biblioteca pela enorme janela, espalhando seu tom poente pelas pilhas de livros no chão e pelas grandes estantes de madeira negra, preenchidas com os mais diversos livros, que tomavam todas as paredes. Os manuscritos antigos recém adquiridos, amarrados com pequenas tiras de couro, jaziam em um canto da grande sala sobre os tapetes, onde Edgard os lia sentado em uma poltrona de madeira acolchoada confortável.

Não somente o cheiro daquele papel amarelo envelhecido lhe agradava, mas as informações contidas nele. Diários e cartas da guerra de séculos atrás, preservadas em pequenos baús soterrados em uma ruína próximas a floresta que levava para a Agália.

Pelo que as cartas indicavam, séculos atrás, aquelas ruínas serviram como posto militar. Mas não tinha tanta certeza quanto ao fim que aquele lugar teve. Provavelmente arruinado na guerra. De qualquer forma, tenta considerar esses detalhes secundários e volta a reler trechos soltos, foleando rápido os papeis, pensando em ler tudo meticulosamente mais tarde.

… o segundo carregamento chegou hoje. Enviaremos pela rota principal… ”

… a guerra já estava ganha antes de começar. Tudo que se faz em Agália é assassinar pessoas… Ordens de Telú…”

… Diga a filha que volto em breve… ”

… sofremos uma emboscada a beira da montanha. Dois nossos e doze deles morreram… ”

Seus olhos correm rápidos pelas páginas atentando em um trecho ou outro. Cartas para familiares, registros de suprimentos, diários de batalha e algumas outras coisas. Aquele velho Senhor não saberia o valor histórico daqueles baús ao encontra-los por acaso nas ruínas, e suponho que valor histórico não seja uma moeda corrente por aqui, pensa. Sorte a minha compra-los.

Edgard ouve passos no corredor, e sua atenção se desvia dos escritos. Passos calmos, suaves. Um sorriso lhe chega a boca.

Samantha abre a porta da biblioteca e entra. Vestida em um comprido e casual vestido branco de algodão. Seus longos cabelos deitados tranqüilos por cima do ombro direito. O brilho do por-do-sol tocando sua face delicada de traços finos realçando uma beleza natural.

Edgard se levanta e devolve os papéis para a pilha.

– Posso saber porque os mistérios do mundo resolveram lhe presentear com toda essa beleza? – Pergunta ele com cordialidade e poesia, olhando sua amada caminhar em sua direção.

– Foi para agradar ao mais belo dos homens. – Diz ela aproximando-se dele para brincar com seus longo cabelos negros. Samantha observa seu amado. Alto, de corpo bem feito, rosto de traços nem finos nem grossos e o que mais chamava atenção, olhos negros como os cabelos, como que conflitando com toda a luz do ambiente para continuar existindo. Olhos onde ela gostava de se deixar perder sempre que podia.

– Quando encontrar o tal mais belo, diga que não pode ficar com ele, pois o mais apaixonado de já lhe tem. – Responde.

– Bobo. – Diz ela dando lhe um beijo demorado, e mordendo seus lábios de leve ao final.

– Sempre fui.

Comenta ele, e volta a beija-la, agora intensamente, banhados pela luz de um sol que morre ao poucos não querendo nascer de novo pela manhã.

Depois de alguns minutos, o trote de cavalos ao longe lhes chama a atenção. O ultimo raio de sol morre no horizonte e a noite chega.

– Quem será? – Pergunta ela.

– Espero que alguém que não queira ficar muito. – Responde Edgard dando lhe um beijo e indo em direção a janela olhar. Ela o acompanha.

Lá em baixo vêem uma carruagem de aparência fina e formal entrar no terreno, puxada por dois cavalos robustos chicoteados por um colcheiro baixinho de cabelos negros..

– Problemas. – Diz Samantha saindo rápido da sala. – Fique aqui, Edgard. Vai ser melhor.

Pensa que não seria bom ser avistado por um Senhor. Podem começar a desconfiar. Mas resolve descer atrás de Samantha para o andar de baixo quando ouve alguém bater a porta.

Sai da sala apressado, e desce as escadas até o segundo andar pulando de dois em dois degraus. Parando na curva da escada para o primeiro andar, onde se esconde e tenta ver quem são os visitantes e o que querem, sem que sua presença seja notada.

Vê parado na porta, a frente de Samantha, um homem e uma mulher. O homem aparenta ter trinta anos. Longos e claros cabelos loiros que lhe alcançam as costas. Veste-se formal, colete de linho, tons de verde escuro quase preto, botas marrons e nas costas uma capa pesada e escura. Algo naquele homem lhe faz sentir medo. Como se a alma daquele Senhor transbordasse de seu corpo e preenchesse o ambiente com suas intenções.

Seus olhos recaem sobre a acompanhante. Aparenta ter vinte anos e não mais que isso. Cabelos curtos não alcançando os ombros, mais tão claros quanto os do homem. Veste-se com roupas militares. Algodão sem tingimento; botas grossas de cavalaria; armadura simples, mas nobre. Ombreiras, peitoral, braçadeiras. Um soldado? Mas não há inimigos…

Ahava. – Soa a voz de Samantha dirigindo-se ao homem. – Boa noite.

– Boa noite, Samantha. – responde o homem. – A tempos que meus olhos não tocam sua beleza. E com que felicidade digo, que continua tão bonita quanto anos atrás.

– Nem todos tem a idade do diabo, como você.

– Agressiva? A idade não deveria ser um problema para nós. Assim como não é para mim. – Diz o visitante.

Edgard sente-se atordoado pelo tom do homem, como se sua voz carregasse história, conhecimento, ponderação.

– Pena que muitos de nós esqueceram quão forte somos. – Completa Ahava. – Cada dia que passa, mais me envergonho do que estamos nos tornando.

– Muitos de nós só querem viver suas vidas. Os erros do passado devem permanecer no passa…

– Não há erros no passado. – Interrompe Ahava sem alterar o tom de voz ou mesmo sua presença. – O erro foi ter continuado aqui. Não irá me convidar para entrar? – Pergunta o visitante dando um passo a frente.

– Sei que não quer se demorar. Ficamos aqui.

– Que seja. Suponho que conheça minha filha, Calmá? – Pergunta ele olhando para a jovem ao seu lado.

Edgard força a vista procurando semelhanças entre os dois, e acha apenas algumas poucas a aquela distância.

– Conheço apenas de história. – Fala Samantha virando-se para Calmá. – Muda, não é? Trágico. Mas ela não parece ter muito o que falar. – Provoca olhando sua reluzente armadura.

– Um pequeno infortúnio. – Comenta ele. – Suponho que saiba também, doce Senhora, que a mãe de Calmá morreu alguns anos atrás.

– Doente, certo? – Pergunta cerrando as mãos, como quem se incomoda cada vez mais com o rumo rápido da conversa. – Parece que nem você pode fazer algo.

– Tem anos o suficiente para saber que uma doença não seria problema para minha família. – Diz Ahava.

– Logo seu falecimento se deve apenas a sua morbidez e indiferença? – Arrisca Samantha, cada vez mais sentindo o peso do medo naquele local, fluir do visitante.

– Case-se comigo. – Irrompe Ahava.

O silêncio toma o ambiente por alguns segundos.

– Não tenho interesse. – Diz ela cerrando mais ainda as mãos que começam a tremer.

– Não foi um pedido. Sei sobre você e o humano.

Novamente a sala mergulha em silêncio. Edgard não se acostuma com o ritmo da conversa dos dois. É como se ambos soubessem mais do que falassem, e falassem mais do que dissessem.

– Não faça nada a ele… – Uma lágrima escorre pelo rosto de Samantha. – Por favor…

– Preferí acreditar no contrário. Mas você desonra os irmãos. – A presença de Ahava parece afogar a sala intensamente. O fogo da lareira começa a balançar mais, como se tentasse fugir dali.

– Por favor. – Várias lágrimas rolam pelo seu rosto e pingam no chão de pedra.

– Gostaria que na grande noite, você estivesse ao meu lado, mas seria mais vergonhoso do que falhar. Siga em paz.

Calmá se move na direção de Samantha que caí no chão ajoelhada desabando em lágrimas, como se soubesse de um futuro ruim inevitável. Calmá a levanta e sem avisos, atravessa com uma de suas mãos o peito de Samantha. Rompe a caixa torácica e aperta seu coração o esmagando.

Voltando a si, como quem se recusa a acreditar que algo tenha acontecido, Edgard desce irracionalmente as escadas correndo na direção de Samantha.

– Então é você. – Comenta Ahava ao ver o jovem humano.

Edgard tem a impressão de estar cada vez mais lento ao se aproximar dos três, como se Ahava sugasse sua força.

Calmá solta Samantha no chão e agarra o humano pelo pescoço com uma mão, levantando-o do chão alguns centímetros sem demonstrar qualquer esforço e o pressiona contra a parede. Edgard se sente sufocado e tenta sem sucesso se soltar de Calmá.

– Sabe garoto, você é o pior tipo de humano que rasteja por esse mundo. Acha que humanos e Senhores são iguais? Que pode se relacionar com uma Senhora assim? Está errado. – Diz Ahava se abaixando e passando a mão direita nos seios ensangüentados de Samantha por alguns segundos. – Sinta-se culpado pela morte dela.

O visitante se levanta. Caminha até Edgard e toca sua face com o sangue de Samantha. Seu toque é mórbido. Parece roubar a consciência.

– Mesmo sem merecer, darei a ela um funeral. – Ahava vira-se para Samantha e estende a mão esquerda em direção a lareira.

Fica em silêncio por alguns segundos e murmura palavras que Edgard não entende, mas se recorda de funerais de Senhores. Após terminar Ahava começa a respirar profundamente e as chamas da lareira sacodem intensamente como que sofrendo.

– Veja queimar, garoto. – Diz ele.

Ahava inspira profundamente, e o fogo da lareira se esvai de uma só vez. Tudo fica escuro. Após alguns segundos, ouve a expiração de Ahava e a escuridão da sala é rompida pela gigantesca labareda de fogo que torna-se o corpo de Samantha.

O cheiro de carne queimada atinge as narinas de Edgard assim como o pavor atinge sua consciência.

Pavor esse que vai tornando se fúria em seu interior a medida em que o corpo de Samantha queima, o ar falta a seus pulmões e o sangue a sua mente. Em um movimento impulsivo, ele estende a mão e agarra uma das espadas ornamentais de coleção presa a parede, e usando toda sua força golpeia a têmpora de Calmá, que o solta em um esguicho de sangue.

Tenta respirar, e tosse. Sua cabeça dói, seu corpo pesa.

Olha para Calmá, e a vê com a mão sobre a ferida que sangrava por todo o rosto. Instintivamente Edgard dirige-se para a escadaria por onde havia descido. Pelo canto do olho, vê Ahava sem demonstrar qualquer interesse em persegui-lo, olhando fixamente Samantha queimar e Calmá se levantando.

Sobe correndo a escadaria e chega ao segundo andar. Em uma tentativa desesperada de evitar uma perseguição, agarra uma mesa que estava no corredor e a derruba escada abaixo junto com vasos e algumas esculturas, percebendo então a ingenuidade de seu plano quando Calmá dobra a curva e pula sem problema sobre a mesa.

Edgard retoma sua corrida, indo agora para o terceiro andar. Percebe não ter muita saída, e entra rápido em uma das salas. Está escuro. Fecha o trinco e anda de costas observando a porta e os pequenos fachos de luz de velas que vinham do corredor passando por de baixo, temendo o que fosse passar por lá.

Ouvidos atentos e amedrontados, como os de um coelho temendo uma raposa, ouvem passos no corredor. Depois silêncio. A lua ilumina fracamente o ambiente pelas frestas da janela fechada. Edgard corre e a abre. O vento da noite acerta seu rosto.

Impossível descer. Olha para trás, e vê uma sala agora iluminada pela fraca luz do luar, recheada de moveis cobertos por panos brancos. Usavam aquela sala como depósito de móveis.

Edgard percebe ainda estar segurando a espada sem fio manchada de sangue, e a ergue em riste, sem muito mais opções, observando a porta.

Imagina que Calmá esteja brincando com ele. Talvez ela goste de causar medo na caça. Uma caçadora…Edgard imagina por que ela não o matara antes. Queria me mostrar Samantha…

A porta se estoura em pedaços de uma só vez, deixando entrar a luz e a silhueta da caçadora. Ela sorri com o rosto ensangüentado

Edgard recua até perto da janela. A caçadora caminha em sua direção lentamente, como que aproveitando todo o sabor do momento. Não só caçadora… Uma sádica…

Ela para a um passo de Edgard. Distancia suficiente para ele acerta-la. E tomado por um impeto irracional, ele a ataca com a espada mirando seu tronco. Ela ergue o braço esquerdo, e para a espada com mão. Edgard tenta puxar a espada, mas ela o faz antes, desarmando-o.

A caçadora ajeita a espada em sua própria mão, e olha para Edgard, sentindo seu medo. Golpeia seu tronco e ele grita.

Uma talha profunda se faz, chegando a marcar os ossos. O sangue pinga sem fim sobre o chão.

Como que aproveitando o último momento, ela passa a mão carinhosamente sobre o rosto de Edgard e dá um beijo em sua bochecha. O levanta pelo pescoço e o atira pela janela. Deixando a lua ser testemunha de um assassinato sem culpa.

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Projeto Um – Capítulo Primeiro

Posted by manjivitor em fevereiro 26, 2009

A noite estava fria como todas as outras e o vento agitava a grama sempre que podia enquanto Edgard caminhava de volta para sua caseta depois de mais um dia de trabalho para sua Senhora.

A lua, tímida, se escondia atrás de uma nuvem acinzentada enquanto a casa Senhorial, uma grande mansão, fitava soberana o terreno gramado e a floresta ao fundo da pequena caseta, se estendendo para muito além da propriedade, que permanecia em silêncio como que esperando ver pelo menos uma estrela naquela noite nublada.

Pensava consigo mesmo. Havia limpado o primeiro andar inteiro da grande casa e pretendia começar o segundo pela manhã. Teria que dedicar uma maior tempo a prataria que já não era limpa a um bom tempo e poderia começar a enferrujar. Limparia as espadas, escudos e lanças da coleção também. Colocaria os longos tapetes no terraço com chão de pedra polida depois de lavados para secar. Teria que limpar as paredes por detrás das longas tapeçarias, presentes por todo o casarão e recebidas ou compradas em muitas épocas diferentes. Também organizaria novamente alguns livros da biblioteca que sua Senhora deixava sempre largados por toda a casa.

Enquanto caminhava para sua decrépita moradia, que exageradamente chamava de lar e que ficava aos fundos da propriedade de sua Senhora, ele já ouvia seu avô resmungando sozinho lá dentro. O velho Tess, como todos os chamavam, era pai do pai de Edgard e trabalhava para aquela linhagem desde criança.

Diziam que já estava louco de velhice, mas Edgard sentia que de alguma forma gostava muito de seu avô, mesmo que possuísse seus trejeitos loucos e senis, pois afinal era seu único parente vivo e, talvez no fundo de sua personalidade velhaca e irritadiça, morasse uma boa e agradável pessoa que evitava dar as caras.

Chegando próximo a sua caseta, ele já podia ouvir com clareza sobre o que eram os resmungos do velho dessa vez. Algo sobre o frio noturno que invadia sem dificuldades pelas paredes de pedra e parecia não querer mais sair dali. Velhaco enlouquecido, pensava, mas compartilhava de sua opinião sobre aquela casa.

Ambos aprenderam a ama-la independente de seus problemas, mas diferentemente de seu avô, ele a odiava também. Ódio esse não da casa em si, mas do que ela representava.

Edgard, soltando um sorriso debochado pelo canto da boca, como quem sente pena e graça de seu avô ao mesmo tempo, abre a porta e lembra-se tarde de mais de que a mesma estava com problemas. A porta pesada e de madeira ruim começa a cair e ele a segura desajeitado pelo susto e a coloca no lugar de volta depois de entrar, pensando que uma porta nova era mais que necessária. E afinal, por que não uma casa decente? Mesmo uma vida decente?

A caseta de apenas um comodo fora construída para os empregados da linhagem daquela propriedade muito tempo atrás, quando o musgo ainda era jovem e escalava tímido as paredes da mansão, e os ratos da cidade ainda eram poucos.

Possuía uma pequena lareira mal feita em pedras, agora escurecidas pelas chamas, que era suficiente para esquentar ligeiramente aquele comodo quase fétido, onde também eram preparadas as refeições; uma mesa de madeira envernizada que já não contava com seu verniz; par de camas forradas com um colchão rústico e um armário fixo de pedra talhada onde Edgard e seu avô guardavam não só seus pertences, mas também muitas ferramentas e utensílios de trabalho, poucos pratos de metais leves, garrafas de vidro e alguns poucos livros dentre outros objetos essenciais e abandonados, mas não suficientes.

A casa não só tinha aparência de velha e pobre, mas fedia a casa velha e pobre, provavelmente pelos anos de exposição a umidade daquela região montanhosa e florestal, a falta de limpeza regular, ao descaso e principalmente a falta de tempo de todos os que por ali já moraram.

– Se não vadiasse por todo o dia, rapazote molenga, teria tempo para consertar a porta e suas idéias – resmunga o velho magro de cabelos pretos, fracos, longos e embaraçados, fumando seu cachimbo feito de madeira ruim sentado à mesa de costas para a porta onde Edgard estava.

Quanto mais o tempo passa, mais ele fuma para passar o tempo, pensa o garoto sobre o velho.

– Por que não à conserta? Passa os dias fumando esta erva mal cheirosa e grosseira. Não faz mais do que estorvar – provoca o garoto, mesmo sabendo dos problemas de seu avô, e sentindo-se culpado emenda: – Iria fazer bem para sua saúde, Tess.

– Ah! Rapazote miserável! Trabalhei por toda a minha rala vida e agora que o peso acre da velhice me pegou, exige que eu trabalhe e me esforce ainda mais! – Protesta o velho gritando, cuspindo fumaça e gesticulando para o nada com a mão ossuda e enrugada.

– Um pouco de exercício não lhe fará mal, está doente, sabe disso – fala o garoto pousando a mão direita sobre o ombro do velho, o cumprimentando, e indo em direção a sua cama onde se deita ruidosamente, devido as armações antigas da mesma, e cruza os braços atrás da cabeça enquanto fita sem muito entusiasmo o teto mofado pelo tempo, imaginando que histórias teria ele para contar.

O velho solta um resmungo incompreensível junto com uma baforada de fumaça acre e depois de um tempo não vendo reação em seu neto dá uma batida com seu pé no pé da mesa, fazendo o prato metálico sobre ela sacudir e fazer barulho o suficiente para chamar a atenção.

Edgard se levanta de sua cama e vê um prato metálico parcialmente amassado, como de costume para aquela caseta, com comida e um copo com água em cima da mesa. Sente-se um pouco culpado por dizer que seu avô não faz nada e força um sorriso falso para não parecer desconcertado e sem graça, seguido de um “obrigado” que saiu desconfortável, mas justo, da boca.

O garoto então puxa a cadeira velhaca e senta-se à mesa com seu avô e começa a comer, com colheradas cheias, aquele prato de sopa rala de batatas e aproveita o momento para falar. – Amanha a noite trarei mais comida da despensa. Chega de batatas com gosto de ausência, vou trazer algo diferente e que nos mantenha de pé por mais que algumas horas. Alguns grãos e frutas talvez, enquanto não estragam. Melhor nós comermos do que sobrar.

– Batatas bastam para nós. Não deixe sua Senhora Samantha ver você tirando comida da despensa o tempo todo, como um humano desrespeitoso, vai acabar arranjando problemas para nós – fala o velho Tess olhando para o garoto já adolescente que vestia roupas frouxas, encardidas e deixava os longos cabelos pretos caírem sobre a mesa enquanto comia e emendou: – Se bem que a Senhora sempre fora desligada como a mãe. Mas um Senhor normal prefere dar comida aos porcos e aos gatos do mato ou deixar que estrague, do que alimentar um humano com mais do que ele precisa para manter sua miséria de pé e trabalhando.

– Não haverá problema algum, Samantha não ligará, sei que não – o velho faz uma cara de asco ao ouvir o nome nu de um Senhor sem o seu título prefixal e Edgard, ignorando o comentário implícito do velho, prossegue: – E se você não fosse tão orgulhoso poderíamos ter muito mais do que esta caseta fedida! Não são todos que tem ou terão a sorte de algum dia ter uma Senhora tão amigável!

– Ah! As pessoas vêem, Edgard! As pessoas sabem! Aprenda a ficar no teu lugar sozinho, ou terão que lhe ensinar! Vai acabar conseguindo problemas, se não com Senhora, com algum outro Senhor, seu tolo estupido! – Gritou o velho dando um murro na mesa, fazendo o prato de sopa de batatas, quase vazio, sacudir, e começando uma crise de tosse profunda, faz Edgard se levantar e ir até ele assustado.

– Já te disse para moderar! Você não é mais jovem – disse o garoto retirando o cachimbo das mãos do velho que ainda ofereceu resistência puxando-o de volta e mesmo durante a crise de tosse, que vinha se tornando cada vez mais freqüente, ainda tentou sem muito sucesso pronunciar: “Me solta!”.

A crise piora e a tosse começa a vir acompanhada de sangue. Edgard sem saber o que fazer corre e pega seu copo com água para Tess que agora já estava ao chão, caído e tossindo profundamente. O garoto ajoelha-se e tenta entregar a água para o avô, que vertia sangue pela boca e nariz, e o velho dá um tapa no copo derrubando-o.

Desesperado, Edgard levanta assustado pensando em talvez correr e chamar Samantha para ajuda-lo, mas vê a mão de Tess estendendo-se no ar, antecedendo sua ação, e agarrando sua camisa para que esperasse. Contestado e assustado ele então senta ao lado do avô e cobre a face com as mãos enquanto as lagrimas descem ao chão, dizendo não saberem o que fazer, a espera por uma melhora.

Depois de alguns minutos, e o fim da crise de tosse, o garoto limpa o sangue do chão com um pedaço de pano velho, e decide jogar fora sua roupa manchada mais tarde.

Ao terminar de limpar, Joga o pano em um balde de madeira e senta, sentindo-se esgotado e com a cabeça baixa, na cadeira mais próxima. Enquanto o velho, sentado em sua cama, treme devagar e respira pausadamente envolto até os ombros em um cobertor encardido.

Os pensamentos lhe invadiam a mente com freqüência. Edgard sabia que seu avô não viveria muito mais e ele ainda se recusava a ter qualquer ajuda médica que Samantha pudesse patrocinar vinda da cidade. Velho tolo! – Pensa Edgard. – Vai morrer pelo orgulho e não pela doença!

– Sabe garoto – diz o velho quebrando o silêncio depois de ter recuperado um pouco do ritmo de respiração. – Quando eu era jovem, Senhor Simon me levava com ele a grande feira central com freqüência. A linhagem não era muito rica ainda, então eles lucravam mais com a compra e venda de antiguidades. Livros de todos os tipos, esses mesmo que você gosta de ler, armas de guerra, tapetes e outras frivolidades de Senhor, sabe como é. E um dia, voltando deixei por acidente cair um livro e quando chegamos o Senhor Simon deu por falta, tive que voltar correndo para procurar o livro antes que outro alguém o encontrasse e o levasse dali – o velho faz uma pequena pausa para tossir, o que leva a cara de Edgard a empalidecer um pouco, mas que é parcialmente tranqüilizada por um sinal da mão de Tess dizendo que estava tudo bem, e continua lentamente: – Procurei o livro pelo caminho que passei, pela beirada do barranco da estrada e pela centro e não o achei. Procurei por todo o resto do dia.

– Quer mais água? – pergunta o garoto levantando-se para pegar mais.

– Bem, muito tempo depois então resolvi voltar para a casa pois já era noite e não poderia procurar muito mais para que o Senhor não achasse que eu havia fugido e então mandasse Guardas atrás de mim – prossegue o velho ignorando a pergunta de Edgard. – No caminho de volta, com medo da punição que iria levar por ter perdido o tal livro e por ter passado o dia procurando e não achado, acabei me desatentando, escorreguei e cai no barranco ao lado da estrada – o velho fez outra pausa, como que para buscar as lembranças na cabeça e prosseguiu.

– Quando cheguei lá em baixo, já ao lado de Forunatu, todo machucado e levantei a cabeça para ver onde estava, do meu lado havia uma menina toda suja me olhando escondida atrás de um arvore. Vendo que eu era humano conversamos e eu descobri que ela tinha fugido pela manhã e estava ali desde então escondida sem saber para onde ir. Perguntei a ela se ela não sabia que seria achada de qualquer forma e que seria melhor voltar por conta própria. E ela disse que não queria voltar nunca para seu dono que a espancava frequentemente e a usava como escrava de seus prazeres. Então decide levá-la comigo de volta para a estrada para conversarmos melhor, e ela me acompanhou preocupada em ser vista. Chegamos lá exaustos, e pela estrada vinha um Guarda Montado que chamou nossa atenção e ao vê-lo, Harth, tentou sair correndo. Sim, ela mesmo – comenta o velho ao ver que o nome chamara atenção de Edgard.

Tess aproveita a deixa para respirar um pouco e continua: – Mas bem, acabei segurando-a para que não tentasse fugir, era inútil e só pioraria a situação, ela sempre fora muito tola a pobre coitada. Então o Guarda nos levou presos amarrados ao cavalo para a cidade e chegando no centro, o dono de Harth estava esperando por ela. Seu castigo seria terrível, pois seu dono parecia muito transtornado. Ele entregou uma quantia de moedas para o Guarda pelo serviço e saiu levando embora a menina. O Guarda então, logo após, me perguntou de onde eu tinha fugido e expliquei-lhe toda a historia. O Guarda então me disse que se ninguém aparecesse até o amanhecer ele me venderia na feira e me levou amarrado ao cavalo em direção a prisão. Mas não foi preciso esperar muito – o velho ajeitou o cobertor e prosseguiu.

– Senhor Simon chegou algum tempo depois com a carta-de-posse e me levou embora. O castigo também era certo para mim. Mas no caminho de volta, tentei convencê-lo a comprar Harth. Ele disse então que precisava realmente de alguém que cuidasse da comida e perguntou se ela seria uma boa cozinheira. Mesmo não a conhecendo respondi que sim. E no outro dia logo após meu castigo, – nesse momento Tess mostra as cicatrizes por todo o braço direito que Edgard já havia visto muitas vezes e prossegue – fomos a feira e por sorte ele também foi e acabamos por nos encontrar. Indiquei ao Senhor Simon quem era o Senhor da garota, e ele foi lá e a comprou por pouco pois ela estava toda machucada. Foi assim que conheci a sua avó garoto – disse Tess tornando a respirar pausadamente.

Edgard olhava para o avô sem saber o porque de tudo aquilo e o que responder, mas o próprio velho continuou.

– A melhor parte da minha vida, percebe. Não há por que brigar de mais com ela. Deixa ela te levar, e talvez chegue a algum bom lugar, pois se atracar com ela nenhum proveito vai te trazer. Mas veja, agora no fim… O que eu tenho? Minha vida já se passou. Meu tempo se passou, estou velho. A vida não me reserva mais nada de bom, e depois de todos os meus desprazeres, não tenho mais por que me preocupar tanto. Todos tem seu tempo. Você vai aprender…

O garoto fica horrorizado com a frieza do avô em falar de forma tão direta sobre o assunto. Ele sabia que vida de seu avô não fora excepcional, mas relativamente boa para um humano se comparado a de outras pessoas.

Tess chegou em uma idade que poucos conseguiriam chegar. E assistiu toda sua família, com exceção do garoto, morrer sem que ele pudesse fazer nada. Não que outras pessoas pudessem fazer muito mais, mas o velho era o tipo de pessoa conformada que achava esperança um desperdício de tempo que poderia ser menos mal usado em outra coisa. E Edgard sabia que Tess possuía personalidade forte e cravejada, e que discutir com o velho era completamente inviável. Não havia como mudar sua opinião e no fundo ele sabia que seu avô não queria viver muito mais. Talvez tudo aquilo tenha sido uma despedida, ou uma tentativa de confortar o neto.

Um tempo se passou sem que ninguém dissesse ou fizesse nada e depois de conversar consigo mesmo, Edgard percebeu que não havia o que falar em voz alta. Não havia o que discutir. Seu avô não queria mais continuar, e ele sabia que não adiantaria nunca discutir com o velho. Então levantou-se mortificado e entregou o cachimbo ao velho Tess, depois virou-se sem olhar seu avô, caminhou, e deitou em sua cama, chorando em silêncio sem derramar lágrimas.”

Ouviu-se de leve o barulho da grande janela sendo aberta e Edgard foi retirado de seu sonho com um leve beijo em seu rosto. Ser acordado todo dia daquela forma era algo com que sempre devaneou durante muito tempo. Deitado em bons lençóis, em uma cama confortável, e ser acordado por sua amada.

Ele esperava um dia comum, mais de certa forma ocupado, indo ao centro vender e comprar alguns artefatos, passar em alguns bares, afim de encontrar mercadorias mais “seletas” e voltar para casa antes do almoço para ler um pouco. Durante a tarde ajudaria com algumas tarefas de que sentia falta como limpar algumas partes da casa, remover o pó da tapeçaria, e deixaria os trabalhos externos para Aetsen. A noite poderia descansar e vislumbrar sua facilidade com os negócios, os lucros do dia. Não que eles precisassem pois a herança da linhagem de Samantha era mais que suficiente, mas era um serviço do qual gostava muito. E antes de dormir poderia apreciar a companhia de sua amada que o encantava tanto.

– Se dormir mais que o sol, vai acabar sendo invejado por ele – disse uma suave voz que o homem, antes menino, apreciava ouvir. A voz que Edgard desejava ouvir para sempre.

– Já sou invejado pelo sol. Ele só te toca pela manhã, já eu posso toca-la por toda a noite – disse abrindo os olhos a tempo de ver sua amada, Samantha, ajoelhada ao lado dele na cama, esboçar um belo sorriso em resposta a seu elogio demasiado poético.

A mulher com quem queria passar o resto da vida. Rosto de traços finos, olhos verdes claros, longos cabelos loiros que lhe alcançavam os joelhos, um corpo delineado perfeito vestido em uma longa camisola que brilhava dourada com os raios de luz que invadiam o quarto por uma grande janela.

Samantha se inclina sobre Edgard passando a perna por cima da dele o deixando pressionado contra a cama e lhe beija os lábios. Pode sentir toda o corpo dela sobre o seu. Cada detalhe, os seios fartos por baixo da camisola; a maciez da pele; o cheiro de seus cabelos e o amor em seu beijo. Seu encanto era quase sobrenatural, e não deixava de ser.

– Vou preparar a comida, dorminhoco – diz ela saindo da cama se despedindo com mais um beijo nas bochechas, calçando suas sapatilhas acolchoadas e saindo do quarto pela porta.

Edgard se levanta, veste sua camisa de tecido branco e anda em direção a grande janela. Sente o vento frio da manhã entrar no quarto e deita o olhar sobre a caseta nos fundos recostada na grande floresta, que seus olhos mal conseguiam acompanhar. Ele se lembra de sua vida lá, do passado, de seu avô. Não tinha aquele sonho a muito tempo, um sonho recheado de lembranças e culpa. Muitas vezes Edgard imaginava se o sonho havia gerado aquelas lembranças, ou o contrário.

De qualquer forma, o velho havia morrido anos atrás, doente de fumo. Edgard havia sido acordado no meio da noite por um forte ataque de tosse de Tess, e ele já tão velho e doente que mal conseguia falar, sempre ofegante, acabou morrendo fraco pela perda de sangue de forma agonizante. Talvez seu corpo tenha resolvido dar um fim ao sofrimento. Quem vai saber, pensa.

Naquele passado, sentiu-se impotente em relação ao avô, pois nada podia fazer se não observar a agonia e abraçá-lo enquanto Tess vomitava sangue.

Tentou afastar os pensamentos, a culpa e as lembranças triste sobre ele da cabeça meditando sobre o seu dia, e o que teria que fazer. Depois algumas minutos, Samantha o chama à porta para ir comer. Sua vida havia de fato melhorado muito, e se o velho estivesse vivo talvez não tivesse ficado tão doente. Se culpava por não ter forçado um tratamento ao velho Tess. Dane-se sua loucura e orgulho!, pensava, sabendo que ele certamente recusaria qualquer tratamento como sempre recusou.

– Ed, vamos, vai acabar esfriando – disse ela ainda o esperando encostada na abertura da porta.

– Estava pensando sobre os livros, talvez devêssemos vender alguns da coleção – diz ele apenas para dizer algo, virando-se e indo em direção a porta. – Já lemos a maioria.

– Você é realmente ganancioso – fala ela beijando-o mais uma vez e saindo ambos em direção ao andar de baixo para comer.

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